Números nunca foram o meu forte, nem em português. Eu decidi fazer faculdade de Letras, Português-Japonês, justamente por não ter nenhuma aptidão com números.
Em japonês, quando falamos em números, temos várias exceções e vários graus de dificuldade também. Na contagem dos dias, alguns dias são lidos de forma especial. Uma das dificuldades é diferenciar o dia quatro do dia oito. Se você não sabe utilizar bem o prolongamento em japonês ou o pequeno soluço necessário quando utilizamos o tsu pequeno, fica realmente difícil diferenciar. O número quatro, por exemplo, a gente pronuncia yokka (quando escrevemos em japonês, o tsu pequeno é representado pela dupla consoante, neste caso, a letra k). Já o dia oito, nós precisamos prolongar o yo e dizer youka. Pulando para o número 20, não se diz ni juu hachi nichi. Para se referir ao dia 20, temos que utilizar a palavra hatsuka.
Por falar em exceção, logo quando aprendemos a contar em japonês e chegamos até o número 100, nos deparamos com a exceção de alguns números, como, por exemplo, os números 300, 600 e 800. Certa vez, um aluno me perguntou: se eu falar san hyaku, o que acontece? Eu respondi que pode ser que entendam, mas, ainda assim, saberão que você não estudou direito. Por uma questão de fonética, os números mencionados sofrem alterações na leitura. Enquanto os números 100 e 200 nós lemos como hyaku e ni hyaku, os números acima mencionados sofrem uma alteração fonética e devemos ler da seguinte forma: sanbyaku, roppyaku e happyaku.
Aqui vale chamar a atenção para a pronúncia do número 100, hyaku, e não haku. Eu preciso tomar cuidado para não pronunciar de forma incorreta o nome da loja onde todos os produtos, ou pelo menos a maioria, custam cem ienes. O correto é hyaku en, não haku ien. Da mesma forma, quando vamos nos referir à moeda de ¥500. Lembre-se: go hyaku en. Vale lembrar que a moeda japonesa, em português, é iene: um iene, dois ienes, cem ienes, enquanto, em japonês, a pronúncia é en: ichi en, ni en, obviamente, sem plural!
Mas a pior coisa em relação aos números são as casas decimais, divididas de quatro em quatro! Isso, para mim, sempre foi terrível! Por muito tempo, eu tinha dificuldades de traduzir o número 100.000, por exemplo. Eu sempre olhava o número 100, me baseava no modo como dizemos em português e dizia sempre de cara: hyaku man. Eu custava a lembrar do sistema japonês de casas decimais divididas de quatro em quatro! Para quem não sabe, depois de hyaku (cem), hyaku (cem) e sen (mil), temos man, ou seja, 10.000, que em japonês se lê ichi man. Isso quer dizer que, apesar de termos um dez na casa dos mil, em japonês nós não iremos ler como jyuu man, mas sim como ichi man. Se eu digo jyuu man, o número passa a ser cem mil, que seria 10 vezes 10.000. Estão entendendo a gravidade do problema? (risos). Por isso, na hora de traduzir, é preciso tomar muito cuidado e não se deixar influenciar pela leitura do número em português. 500.000, em japonês, não é quinhentos man, é simplesmente cinquenta man.
Talvez isso explique o motivo pelo qual muitos brasileiros, quando se referem aos números, principalmente números altos, mesmo falando em português, não traduzem e dizem simplesmente: ele vendeu a casa por ni oku ou ainda ele recebe ni jyuu man. Mas tudo é uma questão de se acostumar e, claro, treinar bastante!











