Há mais de uma década à frente do Alternativa Online, o jornalista Claudio Endo acompanhou algumas das coberturas mais marcantes da comunidade brasileira no Japão, como o terremoto de Tohoku, a pandemia de Covid-19 e a transformação digital do jornalismo. Ele relembra sua trajetória, analisa o impacto da inteligência artificial nas redações e fala sobre o compromisso de produzir informação útil, confiável e relevante para os brasileiros que vivem no Japão.
Você se lembra do seu primeiro dia na Alternativa?
ENDO: Comecei na Alternativa em 2010, com a missão de dar vida ao site de notícias da empresa, que já existia, mas ainda estava meio parado. Foi um grande desafio, porque era minha primeira experiência com mídia online. Precisei me adaptar a um ritmo completamente diferente. Na internet, tudo acontece muito rápido e é preciso ter agilidade para produzir e publicar as matérias.
Meu primeiro grande desafio na Alternativa foi o terremoto de Tohoku, em 2011. Foram dias – e noites – muito intensos, com uma sequência de acontecimentos que exigia a produção constante de matérias sobre o terremoto, o tsunami e o desastre nuclear. As informações mudavam a todo momento, e nosso trabalho era acompanhar tudo e transmitir as atualizações à comunidade com rapidez e responsabilidade. O início da pandemia de Covid-19, em 2020, foi outro período marcante. Foram momentos difíceis, mas que reforçaram para mim a importância do jornalismo voltado à comunidade brasileira no Japão.
Em 25 anos, qual foi a maior transformação que você viu no jornalismo voltado à comunidade brasileira no Japão?
ENDO: Nos anos 1990, a mídia brasileira no Japão era formada basicamente por jornais semanais pagos. Tive a oportunidade de trabalhar em alguns deles e acompanhar de perto aquela fase. Depois surgiram as revistas gratuitas, entre elas a Alternativa. Lembro que muitas dessas publicações tinham muitos anúncios e poucas matérias.
A Alternativa, porém, ajudou a transformar esse cenário ao contratar bons jornalistas e investir em uma revista que oferecia conteúdo informativo e de entretenimento com qualidade. Acredito que isso representou uma verdadeira revolução na mídia brasileira no Japão. Os jornais pagos foram perdendo espaço para as revistas gratuitas e acabaram fechando sucessivamente. Os sites passaram a levar as notícias aos leitores em tempo real, sem a necessidade de esperar pela edição impressa da semana seguinte. Depois vieram as redes sociais, os aplicativos de mensagens e os celulares, que tornaram o acesso à informação ainda mais rápido e direto. Com isso, o jornalismo também precisou mudar.
Hoje, a inteligência artificial já faz parte da produção de notícias. Você vê a IA como uma aliada?
ENDO: Vejo a inteligência artificial como uma grande aliada, mas também como motivo de preocupação. A tecnologia deve ser aproveitada para agilizar o trabalho, organizar informações e auxiliar em determinadas etapas da produção jornalística. Quando usada com responsabilidade, ela pode tornar o trabalho mais eficiente. No entanto, não podemos abrir mão do profissionalismo, da apuração e da responsabilidade. Mesmo com todos os avanços da inteligência artificial, o jornalismo continuará dependendo do trabalho humano, da presença nos locais onde os fatos acontecem, da consulta a fontes confiáveis e da capacidade de avaliar o contexto de cada notícia.
Também considero fundamental deixar claro o que é real e o que foi produzido ou alterado por inteligência artificial. A IA deve ser usada como uma ferramenta de apoio, nunca como substituta da apuração, do senso crítico e da responsabilidade de quem produz a notícia.
Qual deve ser o papel do Alternativa Online nos próximos anos?
ENDO: O Alternativa Online deve continuar sendo uma ponte entre o Japão e a comunidade brasileira. Em um mundo no qual a informação chega cada vez mais rápido, nosso papel não deve ser apenas publicar primeiro, mas informar com precisão, clareza e responsabilidade. Grande parte dos brasileiros enfrenta a barreira do idioma e nem sempre consegue acompanhar diretamente as notícias, os alertas e as mudanças nas regras do Japão. Por isso, precisamos selecionar o que realmente é importante, explicar o contexto e mostrar como cada assunto pode afetar a vida da comunidade.
Depois de tantos anos dedicados à Alternativa, o que ainda faz você acordar motivado para contar histórias todos os dias?
ENDO: Meu maior prazer nesse trabalho é poder levar informações aos leitores de forma rápida e constante. Parte da comunidade brasileira não tem acesso a muitas notícias do Japão por causa da barreira do idioma. Por isso, sinto que temos a responsabilidade de manter essas pessoas bem informadas, principalmente quando se trata de assuntos que podem afetar diretamente sua segurança, seus direitos e seu cotidiano. É muito gratificante saber que uma matéria pode ajudar alguém a compreender uma nova regra, preparar-se para um terremoto ou tufão, evitar um problema, encontrar um serviço ou simplesmente entender melhor o país onde vive.
Cada dia também traz um assunto diferente. Nunca sabemos exatamente o que vai acontecer, e isso torna o trabalho desafiador e, ao mesmo tempo, estimulante. Depois de tantos anos, o que continua me motivando é saber que a informação que produzimos tem utilidade real e pode fazer a diferença na vida dos brasileiros que vivem no Japão.











