Dia desses, um amigo japonês que fala português me perguntou por que a gente fala “cê vai lá amanhã?”, mas escreve “você”. Mal sabe ele que, no WhatsApp, a gente escreve “vc”, mas isso é outro assunto. Eu simplesmente expliquei a ele que, quando a gente fala, tende a encurtar as palavras. É um processo natural de qualquer idioma. Ele fez uma cara de quem não estava entendendo. Foi aí que eu tive que lançar uma comparação com a língua japonesa, e acho que isso vai ser útil para meus leitores.
Em japonês, esse tipo de encurtamento acontece direto. Quando não é encurtamento, há, muitas vezes, uma mudança na fonética da palavra, ou seja, a pronúncia muda um pouco em relação à forma escrita. Como exemplo, eu comentei sobre a frase zenbu tabechatta (eu acabei comendo tudo). Essa forma, alguma coisa + chatta, é simplesmente uma contração da estrutura formada por um verbo na Forma TE + shimatta. O que quer dizer que eu escrevo zenbu tabete shimatta, mas, na hora de falar, eu falo zenbu tabechatta.
Uma das primeiras contrações que a gente aprende em japonês é com o verbo “ser” na negativa. No livro, está escrito amerikajin dewa arimasen (eu não sou americano(a)), mas, na vida real, o dewa, muitas vezes, se contrai e vira ja. É por isso que a gente ouve mais as pessoas dizerem kore ja arimasen (não é este), em lugar de dizer kore dewa arimasen. O próprio janai é, na verdade, a contração, ou seja, a junção de dewa nai. Arrisco até a dizer que tem gente que só usa janai e acha que essa é a única forma de falar, mas, enfim…
Existem várias e várias outras contrações em japonês. Assim como te shimatta, na linguagem oral, normalmente se transforma em chatta, outra estrutura gramatical que normalmente sofre contração é a forma verbo na Forma TE + oku. Para quem não se lembra desta estrutura gramatical, nós normalmente a usamos para dizer que algo foi deixado preparado, algo foi feito ou será feito com antecipação como forma de prevenção ou preparação para alguma coisa, como, por exemplo: “vou deixar escrito” ou “deixei guardado na gaveta”, e por aí vai. Se eu quero dizer que “vou deixar uma mensagem escrita”, em japonês, eu digo messeeji wo kaite oku. É justamente essa combinação final de te com oku que, muitas vezes, é pronunciada como toku. A mesma frase, então, ficaria assim: messeeji wo kaitoku.
E mais! Se eu pergunto “quer que eu deixe escrito?”, em japonês, eu diria kaite okimashoshou ka. Pois pasmem: aqui ocorre outra contração, e a frase fica assim: kaitokimashou ka.
Até aqui, falamos de contração ou encurtamento de estruturas gramaticais para facilitar a pronúncia. Mas há casos em que a palavra muda de som, e a pronúncia é um pouco diferente daquela que a gente encontra no dicionário, por exemplo. Vejamos a palavra amari. No dicionário, está registrada como amari, ou seja, “não muito”, mas, na vida real, muitas vezes, com o sentido de dar ênfase, muitas pessoas dizem anmari. Por exemplo, se alguém te pergunta se você gosta de verduras e legumes, você pode responder com um “não gosto muito”, ou seja, amari suki dewa arimasen ou, para enfatizar o amari, você pode dizer anmari. E aqui temos a contração que vimos no início da coluna, o dewa arimasen. Logo, para soar mais natural, você pode dizer anmari suki jaarimasen.
Vale lembrar que algumas contrações e mudanças na pronúncia podem soar deselegantes em certos momentos. Portanto, não é porque você aprendeu que chatta é contração de te shimatta que vai utilizá-la a torto e a direito, em qualquer lugar e com qualquer pessoa.
Por fim, voltando ao amigo japonês que fala português, ele parece que entendeu e ainda comentou: “Eu pensava que o correto era ‘pra’, mas só depois vi que o correto mesmo é ‘para’.”











