Artigo do Professor Angelo Ishi para a edição 642 da Revista Alternativa.
Fala-se muito sobre como o Japão vem sendo superado pela China na economia e na tecnologia. Mas o que me incomoda até mais é como a Coreia do Sul vem deixando o Japão para trás em uma área estratégica: a divulgação de sua cultura perante o mundo.
Este meu incômodo se aguçou em uma recente viagem a Nova York. Uma das peças de maior sucesso na Broadway é Maybe Happy Ending. Embora a peça seja falada em inglês, desde o início fica claro para o espectador que ela é uma produção coreana. Ou seja, além de o mundo ter abraçado a banda BTS (e muitas outras do K-pop) e depois de o filme coreano Parasite ter ganhado o Oscar de melhor filme, agora temos um musical coreano que ganhou o Tony Award e faz história nos EUA.
Hoje (21 de agosto), a manchete do diário Asahi é Agência responsável pelo Cool Japan será fechada, por má administração. Em 2013, na época do ex-premiê Abe, o governo lançou o programa Cool Japan para fortalecer a divulgação da cultura japonesa no exterior. A intenção era clara: não deixar que os coreanos reinassem sozinhos como potência asiática de soft power (a capacidade de influenciar outros países atraindo simpatia por meio da persuasão).
A chave dessa política externa é o cultivo de uma boa imagem do país, por meio da exportação de produtos culturais, do estilo de vida e de seus valores. Talvez o maior modelo de sucesso de soft power seja a França, que se firmou como o país do bom gosto, seja na moda, na gastronomia ou no cinema. Os Estados Unidos, embora abusem do seu hard power (poderio militar, interferências políticas, sanções econômicas etc.), também são um exemplo de soft power, seja pelos filmes de Hollywood que ditam tendências, pelas universidades renomadas (e cobiçadas por gente do mundo inteiro) ou pelas redes de fast-food que são referências mundiais (a começar pelo McDonald’s).
O Japão teria tudo para conquistar o mundo com seus animês, jogos eletrônicos, uma culinária espetacular que não se limita ao sushi e ao lámen e muitas outras ferramentas de influência. Mas está desperdiçando oportunidades por falta de uma política consistente. Espero que o fiasco da agência desmantelada sirva para o país acordar e, agora sim, mostrar ao mundo o Cool Japan com mais eficiência.
P.S.: Acesse para ver o trailer de Maybe Happy Ending: https://www.youtube.com/watch?v=c-aGhUjerL8










