A saga dos estilos, parte 4
Entre rendas escuras, jaquetas de couro, jeans desgastados e tênis, a moda conta histórias de pertencimento, ruptura e liberdade.
Na edição anterior, falamos sobre a delicadeza do estilo romântico. Agora, vamos explorar seu lado mais sombrio e acompanhar outros movimentos que ajudaram a transformar a rua em um dos espaços mais criativos da moda.
Mas há uma distinção importante: o gótico não evoluiu até se transformar em street style. Ele faz parte de uma história maior, na qual diferentes culturas convivem, trocam referências e continuam existindo.
Nossa linha do tempo, portanto, não é uma sequência de substituições, mas uma viagem por encontros.
Séculos XVIII e XIX — O fascínio pelo mistério
Antes dos coturnos e da maquiagem escura, o imaginário gótico já circulava pela literatura e pelas artes. Mistério, ruínas, fantasia e inquietação alimentavam uma sensibilidade que também dialogava com o Romantismo.
Esse universo seria revisitado muitas vezes pela moda. Referências históricas, rendas, volumes e contrastes entre beleza e estranheza ajudariam a construir aquilo que hoje reconhecemos como uma estética sombria e romântica. Não se trata, porém, de confundir a arte gótica medieval com a subcultura que surgiria séculos depois. São contextos diferentes, ligados por releituras, não por uma continuidade direta.
Aqui está a primeira conexão com nosso capítulo anterior: o romantismo não vive apenas de flores claras. Também pode encontrar beleza na melancolia.
Anos 1940 a 1960 — A rua já tinha voz
Muito antes da consolidação do goth, grupos urbanos já usavam roupas para expressar identidade. Motociclistas, teddy boys, mods e outros movimentos criavam códigos próprios, combinando música, comportamento e aparência.
A jaqueta de couro, o jeans e os ternos reinterpretados pela juventude mostravam que a novidade não precisava nascer exclusivamente nos salões da alta-costura. A rua também era capaz de propor seus próprios modelos de elegância e rebeldia.
Anos 1970 — O punk transforma a roupa em provocação
Rasgos, alfinetes, correntes, couro e peças customizadas: o punk fez da aparência uma linguagem de confronto.
Em Londres, Vivienne Westwood e Malcolm McLaren participaram decisivamente dessa relação entre música e vestuário. A roupa podia parecer inacabada, agressiva ou desconcertante justamente porque não buscava aprovação. A atitude do “faça você mesmo” questionava quem tinha autoridade para decidir o que era bonito ou aceitável.
Hoje, um jeans rasgado pode parecer cotidiano. Naquele contexto, a ruptura visual tinha outro peso.
Final dos anos 1970 e início dos anos 1980 — O goth ganha identidade
Foi no ambiente pós-punk britânico, aproximadamente entre 1979 e 1981, que a subcultura goth começou a se definir. Bandas como Bauhaus, Siouxsie and the Banshees e The Cure tornaram-se referências dessa cena.
O preto, a maquiagem marcada e a teatralidade conviviam com referências históricas e diferentes formas de experimentação. Ao longo do tempo, surgiram leituras diversas: algumas mais próximas do punk, outras vitorianas, industriais ou futuristas.
Ser gótico nunca foi apenas vestir preto. Há uma história musical e cultural por trás da estética. Usar uma peça escura não significa, automaticamente, pertencer a essa subcultura.
Anos 1970 a 1990 — Em paralelo, o hip-hop cria outra linguagem urbana
Enquanto essas cenas se desenvolviam, o hip-hop construía sua própria história, especialmente nas comunidades negras e latinas de Nova York.
Casacos, chapéus, roupas esportivas, tênis e acessórios ganhavam significado pela maneira de usar, combinar e personalizar. Não era apenas uma questão de conforto: era também presença, criatividade e reconhecimento dentro de uma comunidade. Essa trajetória tornou-se fundamental para a moda urbana.
Ao lado das culturas do skate e de outras cenas locais, o hip-hop ajudou a formar as bases do que chamamos de streetwear. Por isso, reduzir toda a moda de rua a uma herança do rock apagaria contribuições essenciais.
Anos 1990 — O grunge e o despojamento entram em cena
Com bandas como Nirvana e Pearl Jam, o grunge ganhou projeção. Camadas, peças de aparência usada e combinações pouco cerimoniosas colocavam em questão a imagem excessivamente polida.
Esse visual também chegou às passarelas, como na interpretação de Marc Jacobs para a Perry Ellis. O que parecia distante do luxo passou a ser observado por ele. Ainda assim, vestir-se de maneira despojada não é sinônimo de descuido. Na moda, uma aparência espontânea pode envolver escolhas muito conscientes de proporção, textura e sobreposição.
Anos 1990 em diante — Harajuku mistura os tempos
No Japão, a cena de Harajuku oferece outra perspectiva sobre a expressão nas ruas.
A moda Lolita ganhou força nos anos 1990, articulando referências históricas, cultura kawaii e relações com o visual kei. Dentro desse universo, leituras góticas, doces e outras vertentes construíram códigos próprios.
Harajuku nos ajuda a perceber algo importante: street style não significa necessariamente moletom, jeans e tênis. Uma produção elaborada, com rendas e saia volumosa, também pode ser moda de rua.
Anos 2000 até hoje — As referências se encontram
Com a circulação de fotografias, publicações digitais e redes sociais, ficou mais fácil conhecer e recombinar linguagens visuais. A fotografia de moda já vinha ampliando seu interesse pelas escolhas pessoais e pelas experimentações das ruas.
Podemos observar essas aproximações em combinações possíveis: alfaiataria com tênis, vestido delicado com coturno, camiseta ampla com saia de renda. São maneiras de reunir referências distintas sem precisar reproduzir uma subcultura inteira.
Nesse encontro, vale trazer distinções sobre os estilos e conceitos:
Street style é uma expressão ampla para as maneiras de vestir observadas nas ruas. Pode incluir produções clássicas, românticas, góticas ou esportivas.
Streetwear é um campo mais específico da moda, ligado a culturas como hip-hop e skate.
Moderno e despojado descrevem características de uma imagem, mas não são sinônimos desses dois termos. Uma produção moderna pode ser estruturada e impactante; uma produção despojada pode ser suave e discreta.
O que dessa história mora no seu armário?
Pode ser que seu coturno dialogue com o rock. Seu tênis, com o esporte e as culturas urbanas. A renda, com referências históricas que atravessaram interpretações românticas e sombrias.
Isso não significa que cada peça tenha um único significado. Ao chegar ao seu guarda-roupa, ela encontra outra história: a sua.
Conhecer essas origens amplia o repertório e ajuda a escolher com intenção. Afinal, estilo não é reunir tendências sem critério, nem precisar pertencer a uma única tribo.
É entender o que você deseja preservar, transformar ou contar de um jeito inteiramente seu.











