Afinal, quem inventou os estilos?
“Ela tem estilo.” Quantas vezes você já ouviu essa frase ao ver alguém bem-vestido, usando uma peça ousada ou carregando uma bolsa de grife? Mas de onde ele veio?
À primeira vista, parece um elogio simples. Mas ele revela uma confusão: costumamos reconhecer o estilo apenas quando ele chama atenção. Como se vestir de maneira discreta, repetir roupas ou não acompanhar a moda significasse não ter nenhum estilo.
Para começar esta série, vamos colocar o assunto em pratos limpos!
Os estilos que conhecemos hoje como os “7 estilos universais” (veja a edição 643) remontam a todos os estilos que surgiram ao longo dos últimos 100 anos ou mais e os classificam de acordo com as características e semelhanças. Mas ainda não iremos falar sobre esses detalhes! Primeiro, vamos entender o que realmente é importante e o que significa “ter um estilo”.
QUANDO TUDO COMEÇOU!
Tudo começou quando parecer igual já não era mais suportável (século XIV): o conceito de mudar o estilo de roupa por preferência ou tendência, e não apenas por necessidade geográfica ou de proteção, surgiu no final da Idade Média nas cortes europeias (como a de Borgonha, na França). Os nobres mudavam seus estilos constantemente para se diferenciarem dos burgueses que tentavam copiar suas vestes. Algo muito semelhante aos dias atuais.
Estilo é a maneira como você faz escolhas visuais. Até aqui, não parece segredo para ninguém: é a combinação de roupas, cores, formas e detalhes com a qual você se apresenta ao mundo. Essas escolhas podem comunicar algo sobre seus gostos, sua fase de vida e a imagem que deseja construir. Porém, nem sempre traduzem perfeitamente quem você é — afinal, também nos vestimos conforme o orçamento, o trabalho, o clima e as possibilidades de cada momento e, por que não, as tendências?
Estilo, portanto, não é um dom reservado a algumas pessoas. Todos temos uma maneira de nos vestir. A questão é perceber quanto dela foi escolhido por nós e quanto surgiu por hábito, conveniência ou expectativa dos outros.
NOS DIAS ATUAIS, ESTILO NÃO É:
Estilo não é tendência: a tendência aparece nas vitrines, circula pelas redes e, algum tempo depois, dá lugar à próxima. Você pode se divertir com ela, mas não precisa adotá-la para parecer atual. Uma peça só faz sentido no seu guarda-roupa quando você consegue imaginá-la na sua vida e não apenas na fotografia de outra pessoa.
Estilo não é preço: uma etiqueta pode falar sobre marca, qualidade ou poder de compra. Sozinha, não diz se aquela peça combina com quem a veste. Há imagens memoráveis construídas com roupas simples e armários caros que ainda não encontraram uma direção.
Estilo não é estar sempre impecável: repetir um vestido, sair de tênis ou escolher conforto em um dia corrido não apaga sua identidade. A vida real não é uma produção fotográfica, e ninguém precisa transformar cada ida ao mercado em uma declaração de moda.
Estilo não é um teste com resultado definitivo: nomes como clássico, criativo ou romântico podem ajudar a observar preferências. O problema começa quando a categoria vira uma regra: “sou elegante, então não posso usar isso”; “sou discreta, então aquela cor não é para mim”. Pessoas mudam, os ambientes mudam; portanto, seus estilos também podem mudar.
E, sobretudo, estilo não é um corpo específico. Não começa depois de emagrecer, ganhar músculos ou alcançar uma idade ideal. Seu corpo já participa da sua vida hoje e merece roupas nas quais você possa existir agora, com conforto e intenção.
ENTÃO, ONDE O ESTILO APARECE?
Às vezes, em escolhas pequenas. Na camisa que você procura quando precisa se sentir segura. No acessório que parece completar qualquer produção. Na preferência por linhas limpas ou no prazer de misturar estampas. Até naquilo que você decide não usar, embora esteja em alta.
Para brasileiras que vivem no Japão, essas escolhas podem reunir referências de dois lugares: a expressividade com que crescemos e os códigos que aprendemos a observar aqui. Essa mistura não precisa ser resolvida em favor de um lado. Ela pode tornar a imagem mais pessoal.
Descobrir o próprio estilo não significa encontrar uma fórmula e repeti-la para sempre. Significa prestar atenção: em quais roupas você se reconhece? Quais usa apenas porque sente que deveria? O que seu armário diz sobre a vida que você leva hoje e o que ainda pertence a uma versão antiga de você?
E talvez o primeiro passo seja este: parar de perguntar se você tem estilo e começar a observar qual história suas escolhas estão contando.
Na próxima edição: estilo romântico ou suave? De onde surgiu e como aplicar no seu dia a dia.











