ENTREVISTA EXCLUSIVA com Eliane M. Camilo, Psicóloga Clínica – Analista do Comportamento e Especialista em Maternidade (@maternar_tragoverdades)
Hoje muitas crianças aparecem nas redes sociais desde muito pequenas, algumas até como influenciadoras. Do ponto de vista psicológico, em que momento essa exposição deixa de ser apenas algo divertido e pode começar a trazer riscos para a criança?
ELIANE: Não existe necessariamente uma idade específica em que postar uma foto ou um vídeo passa a ser prejudicial. O mais importante é observar como essa exposição acontece, com que frequência, qual é a finalidade e, principalmente, quem está se beneficiando dela.
Uma criança pode gostar de aparecer, dançar, brincar e participar de um vídeo. Isso, por si só, não significa que exista um problema. A questão começa quando a criança passa a ocupar um lugar de “produto” e quando/se existe uma expectativa de desempenho, de audiência, de engajamento ou de retorno financeiro, esse padrão leva a criança a aprender que precisa produzir uma determinada imagem para receber aprovação.
Do ponto de vista psicológico, isso é bastante delicado porque a criança ainda está construindo sua identidade e sua autoestima. Quando a validação externa começa muito cedo e passa a ser constante, existe o risco da criança associar o próprio valor à aparência, à quantidade de curtidas, aos comentários e até mesmo a capacidade de agradar o público.
O que percebo é que a exposição de uma criança nas redes sociais começa a deixar de ser apenas uma brincadeira quando ela passa a ter um custo para o seu desenvolvimento, para sua privacidade ou para a sua saúde emocional.
Também precisamos pensar naquilo que a criança ainda não tem condições de compreender completamente: a permanência e o alcance daquilo que é publicado. Uma criança pode autorizar uma foto hoje porque achou divertida, mas não tem necessariamente maturidade para compreender que aquela imagem poderá circular durante muitos anos, ser copiada, compartilhada ou utilizada fora do contexto original.
Por isso, eu diria que o principal sinal de alerta não é simplesmente a criança aparecer na internet. É quando a exposição começa a ocupar um espaço maior do que deveria na vida daquela criança — quando interfere no brincar, na escola, no sono, na convivência familiar, na privacidade ou quando ela passa a sentir que precisa performar para ser aceita.
Precisamos lembrar que uma criança não tem condição emocional e nem racional de ser responsável pelo próprio gerenciamento de imagem. O adulto é quem precisa colocar limites que a criança ainda não consegue colocar sozinha.
Sendo assim, antes de publicar qualquer imagem de uma criança, eu faria algumas perguntas: “Essa imagem respeita a privacidade dessa criança? Ela gostaria que isso estivesse disponível para qualquer pessoa daqui a dez anos? Estamos fazendo isso por ela ou por nós? E, principalmente, essa exposição está a serviço do desenvolvimento da criança ou estamos colocando a criança a serviço das redes sociais?”
No caso das crianças influencers, existe um limite entre incentivar um talento e transformar a criança, mesmo sem perceber, em personagem, produto ou fonte de renda da família? Que sinais os pais deveriam observar?
ELIANE: Essa é uma pergunta muito interessante e gera uma discussão importante sobre o tema influenciadores mirins.
Quando a exposição se torna frequente, planejada, monetizada e passa a fazer parte da rotina da criança, precisamos ter um cuidado muito maior. A infância não pode ser transformada em trabalho, performance ou fonte permanente de conteúdo e/ou renda.
Aqui no Brasil, entrou em vigor em 17 de março de 2026 a Lei Felca do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/2025),. que estabelece que a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital deve considerar seu melhor interesse, sua privacidade, segurança, saúde mental e física e seu desenvolvimento biopsicossocial. A lei também prevê proteção contra exploração comercial, publicidade inadequada, assédio, violência e outras situações que possam causar danos.
Existe sim, uma linha bastante delicada entre incentivar um talento e transformar a criança em personagem, produto ou fonte de renda. E essa linha nem sempre é percebida pelos próprios pais, principalmente quando a exposição começa como uma brincadeira e, aos poucos, passa a gerar seguidores, contratos, presentes, publicidade ou dinheiro.
Para mim, a pergunta fundamental que os pais devem fazer a si mesmos é: quem está no centro dessa experiência: a criança ou o conteúdo que ela produz?
Incentivar uma criança a cantar, dançar, contar histórias, cozinhar, brincar ou desenvolver qualquer outro talento pode ser muito positivo. O problema aparece quando aquilo que começou como uma atividade prazerosa passa a exigir frequência, desempenho, audiência e resultados.
Do ponto de vista psicológico, isso merece bastante atenção porque a infância é justamente o período em que a criança está construindo sua identidade. Quando ela passa muito cedo a receber uma quantidade significativa de aprovação — ou críticas — de pessoas desconhecidas, pode começar a confundir “quem eu sou” com “o que as pessoas gostam que eu seja”.
Também pode surgir uma dependência da validação externa: a criança fica feliz quando recebe muitos comentários e frustrada quando o conteúdo não performa bem. Com o tempo, isso pode contribuir para dificuldades relacionadas à autoestima, ansiedade, comparação social, imagem corporal, necessidade excessiva de aprovação e dificuldade para lidar com frustração e rejeição.
Outro ponto importante é que criança precisa continuar sendo criança: brincar, ter momentos de tédio, errar, mudar de interesse, ter privacidade e poder dizer “não quero”. Se ela sente que não pode parar porque existem contratos, seguidores ou uma expectativa financeira da família, precisamos olhar para essa situação com muito cuidado.
Por isso, alguns sinais de alerta que eu orientaria os pais a observar são:
- a criança demonstra ansiedade ou irritação quando precisa gravar ou publicar;
- começa a perguntar e ficar sob controle de quantas curtidas, visualizações ou seguidores conseguiu;
- fica preocupada com aparência, peso, roupas ou com a necessidade de parecer “perfeita”;
- sente que precisa repetir uma personagem mesmo quando não está com vontade;
- perde espaço para brincar livremente, descansar ou conviver com outras crianças;
- começa a ter medo de decepcionar os pais caso não queira produzir conteúdo;
- a família passa a depender financeiramente daquela exposição;
- os adultos começam a decidir o que a criança deve falar, vestir ou fazer pensando mais no engajamento do que no bem-estar dela;
- situações íntimas, momentos de vulnerabilidade ou informações sobre a rotina da criança passam a ser utilizados como conteúdo;
- e por último, mas não menos importante, essa criança é verdadeiramente respeitada quando diz “não quero”.
Eu também acho importante que os pais façam uma pergunta que pode ser bastante difícil, mas necessária: “Se isso não fosse financeiramente rentável, ou trouxesse reconhecimento, meu filho ainda gostaria de fazer?”
Se a resposta for sim, talvez estejamos diante de uma atividade que realmente faça sentido para aquela criança. Se a resposta for não, talvez seja necessário repensar o quanto aquela experiência está sendo construída em benefício dela. E é nesta resposta que está a diferença entre incentivar um talento e tornar a criança um produto.
Uma criança pode ter talento, gostar de aparecer e até construir uma trajetória no ambiente digital. Mas ela não deveria precisar abrir mão da própria infância para sustentar uma audiência.
Estamos criando uma geração que cresce recebendo curtidas, comentários, comparações e validação pública desde cedo. Que impacto isso pode ter na autoestima e na construção da identidade dessas crianças?
ELIANE: Como citei na questão anterior, esses são pontos que mais merecem nossa atenção. A criança ainda está construindo a percepção de quem ela é, e quando essa construção acontece acompanhada de curtidas, comentários e avaliações públicas, existe o risco de ela começar a buscar fora dela as respostas para uma pergunta que deveria ser construída internamente: “Quem eu sou?”.
A autoestima pode ficar condicionada de forma exagerada e irreal à aprovação externa e isso prejudica a construção da autoconfiança. A criança pode começar a entender, mesmo sem perceber, que quando recebe muitas curtidas ou comentários positivos ela “é boa”, “é bonita”, “é interessante”; quando isso não acontece, pode interpretar que há algo errado com ela.
Também existe o impacto da comparação que é algo complexo até para adultos lidarem, imagine para uma criança. Nas redes sociais, a criança não compara apenas a própria vida com a de outras crianças, ela compara seu corpo, sua aparência, suas habilidades e sua popularidade com imagens que na maioria das vezes são cuidadosamente produzidas.
Isso pode favorecer a insegurança, a ansiedade, a necessidade excessiva de aprovação e dificuldade para lidar com críticas ou frustrações.
Por isso, eu acredito que precisamos ensinar a criança, desde cedo, que curtida não é sinônimo de valor e popularidade não é sinônimo de identidade.
O que precisamos é garantir que a criança tenha espaço para descobrir quem ela é antes que a internet diga a ela quem ela deveria ser e devemos priorizar a proteção da saúde mental, da privacidade, da segurança e do desenvolvimento biopsicossocial da criança.
Saindo um pouco da psicóloga e entrando na Eliane mãe: você tem duas filhas, Sophia e Bruna. O que existe de particular na maneira como você as cria? Há alguma regra, hábito ou escolha dentro da sua casa que talvez seja diferente do que outras famílias fazem?
ELIANE: É interessante separar a Eliane profissional da Eliane mãe, pois a sociedade supõe que nós psicólogas sejamos mães perfeitas ou que tudo para nós é simples de resolver!
Por essa razão é importante ressaltar que existe uma distância enorme entre a teoria e a vida real e isso eu costumo dizer com muita honestidade para as minhas pacientes que são mães. (risos)
Na teoria, a gente sabe como gostaria de agir: conversar com calma, acolher a emoção adequadamente, oferecer escolhas, estimular a autonomia, nunca perder as estribeiras. Na prática, porém, existem dias em que a rotina aperta, o tempo acaba, o caos se instala e tudo o que você consegue pensar é: “Eu quero sumir daqui!” (Risos)
A teoria ajuda muito, e sou extremamente grata por tudo que estudei. Mas os filhos têm um talento especial para transformar qualquer teoria bem organizada em um estudo de caso completamente novo. (Risos)
Mas é justamente nesse intervalo entre o ideal e o possível que a maternidade acontece de verdade. Porque, mesmo quando não conseguimos fazer tudo como gostaríamos, algumas escolhas continuam sendo muito importantes dentro da nossa casa. Uma delas é incentivar a autonomia desde cedo.
Eu vejo na prática e comprovei no meu dia-a-dia que a autonomia começa a se desenvolver ainda no bebê. Não se trata de esperar a criança crescer para, de repente, dizer: “Agora você precisa se virar”. Trata-se de permitir que, desde pequena, ela participe, faça escolhas possíveis para a idade, tente, erre, tente novamente e descubra, aos poucos: “Eu sou capaz.”
Com minhas filhas, procuro criar essas oportunidades sempre que possível. É verdade que, muitas vezes, fazer por elas é mais rápido — especialmente quando estamos com pressa. Mas, quando fazemos tudo pela criança, também acabamos tirando dela experiências importantes: a chance de tentar, de encontrar soluções, de lidar com pequenos desafios e de perceber que consegue.
Para mim, autonomia não significa deixar a criança fazer tudo o que quer. Significa oferecer liberdade dentro de limites pré estabelecidos. É dizer: “Você pode escolher entre essas duas opções”, “pode tentar fazer sozinha” ou “eu estou aqui se precisar de ajuda”. É estar presente sem atravessar o tempo da criança.
E, junto com a autonomia, considero essencial ensinar minhas filhas a reconhecerem as próprias emoções. Não quero que elas cresçam acreditando que sentir raiva, tristeza ou medo é ruim e deva ser evitado entrar em contato com essas emoções. Quero que elas consigam olhar para si mesmas e dizer: “Estou com raiva”, “estou frustrada”, “estou triste” ou “isso me deixou insegura” sem sentir que está fracassando.
Quando a criança consegue dar nome ao que sente, começa a construir ferramentas para lidar com aquilo. E isso não significa permitir qualquer comportamento. A emoção é acolhida, mas o comportamento continua tendo limite.
Pode ser: “Eu entendo que você está muito brava, mas não pode bater” ou “Eu sei que você está frustrada porque não conseguiu; vamos respirar fundo e tentar novamente”. A mensagem é: o que você sente importa, mas você também pode aprender a escolher o que faz com esse sentimento.
Essa é uma diferença importante na nossa casa: não quero criar crianças que nunca se frustram, mas crianças que aprendam a atravessar a frustração. Porque a vida não vai eliminar todos os obstáculos por elas e nem nós como pais iremos resolver tudo para sempre. O que posso fazer é ajudá-las a desenvolver recursos para enfrentar os sentimentos com segurança, consciência e confiança.
Por fim, criar filhos autônomos não significa prepará-los para se afastarem de nós. É dar a eles raízes tão seguras que possam descobrir o mundo com confiança sabendo que, mesmo quando escolherem o próprio caminho, se necessário for, sempre terão um lugar de acolhimento e confiança para voltar.
Mesmo sendo psicóloga, imagino que na maternidade a teoria nem sempre funcione perfeitamente. O que suas próprias filhas já ensinaram ou fizeram você mudar de opinião sobre criação de filhos? E que conselho e dicas você daria hoje aos pais que querem preparar os filhos para esse mundo tão diferente daquele em que nós crescemos?
ELIANE: Como eu disse na questão anterior, a teoria e a vida acontecendo no dia-a-dia podem nem sempre andarem de mãos dadas, mas particularmente a maternidade foi uma das experiências que mais me ensinou a diferenciar a psicóloga da mãe real, tanto que me especializei profissionalmente em maternidade, pois as mães vivem com muita culpa e muita autocobrança e isso pode ser adoecedor.
Mas o que eu experimentei foi que na teoria, eu sei muitas coisas, muitas técnicas e estratégias. Estudei desenvolvimento infantil, comportamento, parentalidade, regulação emocional… Aí chegou nossa primeira filha a Sophia e falou: “Ótimo, parabéns mamãe, agora vamos ver se você consegue aplicar tudo isso aqui!” (risos)
E fica ainda mais interessante a minha vivência, passei pela primeira experiência, tudo acontecendo sob controle, 6 anos e meio depois chega nossa segunda filha e disse: “Está pensando que já é especialista? Deixa eu dar uma agitada nisso aqui!” (Risos)
Sim, nenhum filho será como o outro!
E aqui deixo registrado que as lições mais importantes que minhas filhas me ensinaram foram: a diferença entre uma filha e outra e também o filho idealizado e o filho real.
Quando a gente imagina a maternidade, cria uma expectativa de como será nosso filho, de como ele vai se comportar, do que vai gostar, de como vamos educá-lo. Só que aí a criança nasce com uma personalidade própria, temperamento próprio, necessidades próprias e, muitas vezes, completamente diferente do que a gente imaginou.
E eu aprendi, principalmente com minhas filhas, que não existe uma única forma de exercer a maternidade. O que funciona muito bem para uma criança pode simplesmente não funcionar para outra.
Eu precisei aprender a deixar de pensar em “como eu gostaria de fazer” e começar a perguntar: “O que funciona para essa criança?”
E isso exige muita flexibilidade. Às vezes a gente prepara toda uma estratégia maravilhosa, baseada em tudo o que estudou, e a criança simplesmente olha para você e deixa claro que aquilo não vai funcionar. (risos) E aí você precisa respirar e pensar: “Tudo bem, vamos tentar de outro jeito.”
Minhas filhas também me ensinaram que tratar os filhos com igualdade não significa necessariamente tratar os filhos da mesma maneira. Crianças diferentes precisam de coisas diferentes. Cada uma tem seu jeito de sentir, de aprender, de se relacionar e de responder aos limites.
E diariamente fica muito claro que a mãe que a Sophia que tem 12 anos precisa e tem não é a mesma mãe que a Bruna de 5 anos tem e precisa.
Eu vejo isso de uma maneira muito concreta dentro da minha própria casa. Tanto Sophia quanto a Bruna são extremamente inteligentes, mas são muito diferentes entre si.
Sophia sempre foi muito madura para a idade. Desde pequena, parecia uma mini adulta falando, muito racional, segura de si, muito consciente das próprias capacidades. Ela sempre teve uma maneira muito adequada de reconhecer e de lidar com as próprias emoções e, por volta dos 9 anos, já dizia com toda convicção a profissão que quer seguir e não mudou de opinião. (risos)
Já a Bruna sente tudo intensamente. Ela ama muito, é extremamente exigente consigo mesma e se frustra muito quando sente que não consegue fazer algo como gostaria mesmo que ela consiga fazer. Mas também é uma criança muito proativa e o que aprende passa a aplicar: “Agora eu já consigo fazer sozinha!” e é justamente aí que, às vezes, ela me deixa de cabelos em pé. (risos)
Então, se eu pudesse dar um conselho aos pais hoje, seria: conheçam seus filhos antes de tentar encaixá-los no filho que vocês idealizaram e os amem verdadeira e intensamente. Criança amada cresce segura!
Observem. Escutem. Conheçam a personalidade, os interesses, as dificuldades e as potencialidades daquela criança e estimule sempre! Descubram como eles aprendem, como sentem, como reagem à frustração, o que os motiva e o que os ajuda a se reorganizar.
E não tenham medo de mudar a estratégia quando ela não estiver funcionando. Às vezes, a gente precisa abandonar o nosso “manual” e construir um novo caminho junto com aquela criança.
E eu diria também para os pais não terem tanta pressa em preparar os filhos para o mundo. O mundo mudou muito desde a nossa infância e continuará mudando.
Precisamos antes ensinar cada criança a se conhecer, reconhecer suas emoções, lidar com frustrações, pedir ajuda, respeitar limites e respeitar os outros.
E o mais importante não é preparar nossos filhos para um mundo específico, mas dar a eles recursos internos para conseguirem lidar com os mundos que ainda nem conhecemos.
E talvez seja justamente esse o aprendizado mais bonito da maternidade: enquanto ensinamos nossos filhos a caminhar com as próprias pernas, precisamos aprender a não caminhar por eles. Precisamos oferecer presença sem controlar, proteção sem impedir e direção sem apagar a individualidade.






