Rafaela Gallego
Fonoaudióloga, cantora, terapeuta e coordenadora da campanha Ninguém Mexe Comigo de proteção a infância
PROTEGER NOSSAS CRIANÇAS EXIGE QUEBRAR TABUS
Viver no Japão nos traz, para a maioria de nós, brasileiros, uma sensação incomparável de tranquilidade.
Ver crianças de seis ou sete anos caminhando sozinhas até a escola com suas mochilas randoseru é um dos símbolos mais bonitos da segurança e da autonomia que o país oferece. No entanto, essa sensação de paz não pode nos cegar para os perigos que não fazem barulho e que não acontecem nas ruas, mas dentro de casa, nas escolas e, cada vez mais, na tela de um smartphone.
Dados recentes das autoridades japonesas, como a Agência Nacional de Polícia e a Agência de Crianças e Famílias, revelam uma realidade dura: os casos de abusos e crimes sexuais contra menores ganham novas e complexas roupagens no ambiente digital. Milhares de denúncias são registradas todos os anos no país, e o avanço da tecnologia acelerou o aliciamento virtual (grooming) através de redes sociais e jogos online populares entre as crianças.
A realidade mostra que o perigo não tem uma única face. Ela pode vir de parentes e conhecidos no ambiente doméstico, de figuras de autoridade em quem confiamos nas escolas, e também de estranhos que aliciam menores por meio de redes sociais e jogos online.
Para a comunidade brasileira, os riscos aumentam diante das barreiras do idioma, do cansaço das longas jornadas de trabalho e do desconhecimento sobre como funciona a rede de proteção infantil japonesa.
Proteger nossos filhos exige quebrar tabus e conversar abertamente sobre limites do próprio corpo e segurança. A prevenção começa com o diálogo em casa e com o conhecimento dos canais oficiais de socorro. No Japão, o número de discagem rápida 189 é a linha nacional gratuita de proteção à criança para denúncias e orientação emergencial.
A segurança das ruas é um privilégio, mas a verdadeira proteção exige nossa presença afetuosa e atenta em cada detalhe da vida de nossos filhos.





