Redes sociais e a arte de influenciar e educar
Por Alesse Nunes
Brasileiros que moram aqui usam redes sociais para aprender japonês, descobrir sabores locais, dividir desafios da imigração, e também para serem vistos e ouvidos. Nesse universo digital há dezenas de produtores de conteúdo, ou influencers (embora a maioria não goste desta expressão). Há glamour mas também muito trabalho e responsabilidade. Educar e influenciar na internet não é exercer poder leve, é carregar peso real. Nesta reportagem discutimos o papel que esses criadores têm na comunidade brasileira no Japão — como modelam identidades, constroem expectativas, enfrentam dilemas éticos, e de que forma seus conteúdos servem de ponte entre um “lá de fora” idealizado e uma vida cotidiana muitas vezes difícil.
3.700 influencers brasileiros atuando no Japão
Eles e elas podem ter 1.000 seguidores ou 700.000, o número não importa muito; o que vale é criar conteúdo. Pelas nossas projeções e estatísticas existem cerca de 3,7 mil produtores de conteúdo brasileiros com foco no Japão que, somados, os principais, alcançam cerca de 18,5 milhões de seguidores. As páginas do YouTube, Instagram e TikTok são invadidas todos os dias com vídeos, áudios e imagens desses criadores de conteúdo especializados em aspectos do Japão, desde carros até viagens e comida. Criatividade e motivação não faltam.
Segundo psicólogos ouvidos pela reportagem, o desejo de produzir conteúdo na internet como resultante de uma combinação de:
Motivação interna e prazer em criar;
Busca por reconhecimento e validação social;
Necessidades de autonomia, competência e relacionamento;
Autoeficácia em acreditar que se faz algo bem e
Usar o conteúdo como extensão da identidade.
No início de 2024, um relatório chamado Digital 2024: Brasil mostrou que 187,9 milhões de brasileiros estavam conectados à internet — cerca de 86,6% da população.
Aqui no Japão a comunidade de cerca de 200 mil pessoas também usa constantemente as redes sociais para entretenimento, diversão e informação. Aprender japonês, conteúdo sobre culinária japonesa, dicas práticas de vida no Japão, ou simplesmente para acompanhar alguém que fala sua língua numa terra muitas vezes fria de acolhimento: a lista é vasta e os produtores de conteúdo não param de criar tentando atender a imensa demanda por aprendizagem, diversão e entretenimento.
Conversamos com muitos deles. Mirela, Ana Paula, Bruna, Nelson, Babi, dentre outras — é unânime as dificuldades em manter a produção de conteúdo periodicamente e também o nível de responsabilidade que cada um tem: não basta entreter, é preciso criar conteúdo com qualidade e consciência. Bruna, por exemplo, decidiu compartilhar seus momentos de depressão e ansiedade não para exposição gratuita, mas para que quem passasse por isso se sentisse menos sozinho. Ana Paula fala que quem acompanha a estética automotiva muitas vezes está distante de grandes serviços caros — mas que dicas bem feitas podem permitir um cuidado básico — o suficiente para preservar dignidade e autoestima. As histórias se multiplicam. Confira nas próximas páginas.