O lado sombrio do Japão. Ed. 620

Kabukicho, um dos bairros mais perigosos do Japão | Ed. 620 Kabukicho, um dos bairros mais perigosos do Japão | Ed. 620

Por Alesse Nunes, jornalista

Quem mora aqui concorda: o Japão é muito seguro para se viver. Mas a imagem de país limpo, organizado e sem perigos também tem uma realidade pouco mostrada: favelas urbanas escondidas, lixo acumulado em áreas centrais, violência nas ruas e a juventude sem rumo nas grandes cidades. 

Há duas semanas, abriram a bolsa da minha esposa e roubaram a carteira com dinheiro e documentos. Todos os japoneses que relatamos disseram que há anos não viam algo parecido. Os funcionários da loja Hard Off em Hachioji não sabiam como ajudar pois era algo raro. O policial disse, literalmente: “Há muito tempo que não vejo um ladrão!”. A carteira foi devolvida em casa por alguém que a achou no chão (sim, há muito desse comportamento no Japão ainda). Mas nos deixou um alerta e tirou o mito do país 100% seguro. O Japão também enfrenta seus dilemas sociais.

PAÍS DE CONTRASTES
Japão é muito mais rico (e perigoso) do que você imagina
Decifrar o Japão é um desafio. Uma nação pequena com poucos recursos naturais mas que produz uma riqueza anual (PIB nominal) de cerca de US$5 trilhões — terceira economia do mundo; com tecnologia de ponta, transporte público perfeito, expectativa de vida que ultrapassa os 84 anos e taxas de homicídio inferiores a 0,3 por 100.000 habitantes. Ao mesmo tempo, existem vielas onde moradores de rua dormem entre latas de lixo, bairros onde o abuso, o golpe, a exploração e a pobreza vivem lado a lado com hotéis de luxo, arranha-céus reluzentes e neon vibrantes. Isso é o Japão de hoje: próspero, sim, mas também desigual, tão limpo quanto escorregadio em suas sombras. 

As taxas de homicídios estão entre as mais baixas do mundo: em 2020, o índice foi estimado em apenas ~0,2 por 100.000 pessoas. Entretanto, nos últimos anos emergiram fissuras antes dissimuladas. Relatórios oficiais de polícia e pesquisas de opinião indicam que desde 2022 o número total de casos criminais registrados começou a subir após décadas de declínio. Roubo, fraude e crimes cibernéticos despontam como as categorias com maior crescimento. 

A agência nacional de polícia (NPA) admite que o sentimento de insegurança entre cidadãos também está crescendo: em pesquisa realizada em outubro de 2022, 67,1% dos respondentes disseram acreditar que a segurança do país se deteriorou na última década.

Embora a insegurança seja muito menor que a maioria dos países, morar no Japão exige cuidados. 

Bolsões de exclusão social
Um fenômeno que também atinge o Japão

O Japão tem bolsões de exclusão, ou seja, territórios dentro das cidades onde a desigualdade social se manifesta com intensidade maior do que na média. Esses espaços, que concentram pobreza, insegurança e marginalidade revelam como a estrutura urbana distribui oportunidades e riscos de forma desigual. Saskia Sassen, em sua obra A Cidade Global, mostra que centros urbanos produzem simultaneamente riqueza extrema e precariedade estrutural. Já Chalmers Johnson em Japão: Quem o Governa? explica que o desenvolvimento japonês nunca foi imune a contradições que deixam grupos e territórios inteiros em situações de vulnerabilidade.

CIÊNCIA TENTA EXPLICAR
Mergulhamos num estudo científico para entender um pouco mais este fenômeno. A pesquisa foi publicada em 2019 por Mamoru Amemiya e Tomoya Ohyama. O estudo examinou dez anos de dados de Tóquio e Osaka e testou a aplicabilidade da chamada “Lei da Concentração do Crime”. Essa lei sustenta que a maioria dos crimes, em qualquer cidade do mundo, ocorre em um número reduzido de áreas. Os autores encontraram três padrões centrais: 

  • Os crimes não se distribuem uniformemente, mas se concentram em distritos específicos. 
  • Essa concentração varia conforme o tipo de delito: furtos em estabelecimentos comerciais apresentaram índices muito mais elevados de concentração do que furtos de bicicletas ou de máquinas de venda automática. 
  • As tendências de concentração permaneceram estáveis ao longo do tempo, mesmo quando o número geral de crimes caiu.

Essa conclusão é contraintuitiva, mas fundamental para entender as contradições urbanas japonesas. O país como um todo registra algumas das taxas de criminalidade mais baixas do mundo. Ainda assim descobrimos “ilhas” de vulnerabilidade. São bolsões invisíveis que expõem fissuras profundas no tecido urbano. 

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1 Comment
  1. Patricia kono 7 meses ago

    Ola,vocês poderia fazer uma materia sobre declaracao de saida definitiva do Brasil
    Muitas pessoas estao perdidas,muitas duvidas
    Muito obrigada

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