“O salário é baixo!”
A barreira do exame SPI
Já adiantei, no mês passado, na edição 633, alguns resultados da pesquisa anual que o governo faz com os estrangeiros no Japão. Agora que os resultados da edição mais recente acabam de ser publicados, quero comentar outros dados.
Perguntados sobre as dificuldades que sentem no trabalho e no emprego, os estrangeiros escolheram, disparado, a opção “o salário é baixo” (29,1%), bem à frente de “é difícil tirar folga” (7,4%) e “a jornada de trabalho é longa” (6,6%).
Além de colher dados numéricos, essa pesquisa abre espaço para que os estrangeiros escrevam livremente o que pensam e sentem. Por exemplo, no item “trabalho e emprego”, há depoimentos como este: “Já completei 20 anos trabalhando na área de kaigo, como cuidador de idosos, mas, devido à minha dificuldade em aprender kanji de nível avançado, até hoje não recebi promoção nem aumento de salário. Vejo japoneses mais jovens do que eu serem promovidos para cargos de chefia. Eu me dedico ao trabalho com empenho, sou gentil com as pessoas cuidadas, mas minha carreira não avançou.”
Outro depoimento afirma: “Para mim, que não estudei no Japão, os exames de SPI que as empresas usam para contratar funcionários são muito difíceis.”
O relatório do governo omite a nacionalidade dos respondentes, mas desconfio que a pessoa que trabalha como cuidadora seja do Sudeste Asiático, região de onde vêm muitas pessoas para atuar nessa área. No caso dela, muitos podem pensar que ela não tem direito de reclamar, porque bastaria “ralar” mais no japonês. Mas o segundo depoimento, sobre o SPI, dá o que pensar.
Imagino que quase nenhum leitor saiba o que é esse tal SPI. Trata-se de um exame criado pela Recruit, gigante do setor de recursos humanos do Japão. SPI é a abreviação de Synthetic Personality Inventory, ou seja, um inventário sintetizado da personalidade da pessoa.
É um exame abrangente, que combina teste de inteligência com teste de personalidade. Ou seja, as empresas conseguem avaliar não apenas se você “tem boa cabeça”, mas também se a sua personalidade combina com a empresa.
Meus alunos da universidade ficam enlouquecidos treinando para o SPI. Isso mostra que, para os estrangeiros, a barreira no mercado de trabalho não é apenas linguística. Ela também tem a ver com as inúmeras peculiaridades do país, que não aparecem em nenhum livro sobre cultura japonesa.