Revendo a Princesa Safiri. Ed. 630

Artigo do Professor Angelo Ishi.

Niigata é como se fosse a minha segunda terra natal. Foi para lá que segui de Shinkansen, logo que desembarquei no Japão. Além de ser a terra da neve (com medalhistas na recente Olimpíada de Inverno), é famosa pelo arroz, saquê e frutos do mar.

Em 2023, a cidade e a província de mesmo nome viraram notícia de uma forma inesperada: resolveram lançar o Niigata International Animation Film Festival (NIAFF), um festival focado em filmes de animação que logo se transformou no maior do gênero na Ásia. Este ano, finalmente, pude conferir o festival, que já está em sua quarta edição e aconteceu de 20 a 25 de fevereiro.

O motivo de ter ido para lá é que um filme brasileiro, “Nimuendaju”, da diretora Tania Anaya, conseguiu entrar na mostra competitiva (para ler o artigo que escrevi sobre o festival, acesse o link abaixo).

Mas o que mais me cativou neste festival foi a retrospectiva em homenagem a Osamu Tezuka, considerado o “deus” do mangá e do animê. Entre as suas obras, traduzidas e amadas no mundo inteiro, estão “Astro Boy”, “Fênix”, “Black Jack” e “Kimba, o Leão Branco”. Para mim, foi emocionante poder assistir, no telão do cinema, a três capítulos de “A Princesa e o Cavaleiro”, que conta as aventuras da princesa Safiri. A série de 52 capítulos fez grande sucesso quando passou na TV Record, na década de 70, e foi um dos primeiros desenhos que vi durante a infância.

Na verdade, Tezuka foi mais do que um autor de desenhos. Ele literalmente ajudou a formatar e popularizar o gênero de animês em série na TV. Isso porque inventou formas pragmáticas de reciclar cenas já desenhadas e de usar cenas paradas por longos segundos. Isso viabilizou a produção em massa de desenhos animados, mesmo com poucos recursos e prazos limitados.

Os mangás e os animês são poderosos instrumentos de diplomacia cultural e de “soft power” (influenciar outros países, atraindo simpatia por sua cultura e valores), ou seja, ajudam a criar fãs do Japão no mundo inteiro. Não haveria exagero em dizer que muita gente, de todos os países imagináveis, interessou-se em conhecer o Japão porque foi plantada em sua memória, já na infância, uma semente de curiosidade em relação ao país que foi capaz de criar desenhos tão fascinantes.

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