Proposta de uma nova lógica nikkei. Ed. 620

ENTREVISTA EXCLUSIVA | ED. 620

Renato Ishikawa, nascido em Paraguaçu Paulista, é uma das figuras mais marcantes da comunidade nipo-brasileira. Economista de formação, sua carreira empresarial foi marcada por feitos pioneiros, como ter sido o primeiro nikkei a presidir a NEC do Brasil, liderando a instalação da primeira telefonia celular no Rio de Janeiro em 1992. Reconhecido como Líder Empresarial do Setor de Telecomunicações, Ishikawa também deixou sua marca no voluntariado, principalmente à frente do Hospital Santa Cruz, onde introduziu uma gestão moderna inspirada no modelo japonês, e como presidente do Bunkyo, instituição central na preservação e promoção da cultura japonesa no Brasil. Ishikawa se dedica com especial carinho ao protagonismo jovem.

O senhor mencionou que tem vindo ao Japão com frequência nos últimos anos, especialmente para eventos de conexão entre jovens nikkeis. Qual o objetivo?
ISHIKAWA: Eu tenho vindo ao Japão há quatro anos consecutivos para participar do Kaigai Nikkeijin Kai. Além disso, sempre trouxe jovens brasileiros nikkeis para encontrar com jovens que já vivem aqui no Japão, seja estudando ou trabalhando. O objetivo é criar uma conexão entre esses jovens, dar espaço para que expressem seus pontos de vista e estimular que eles próprios organizem os eventos. É algo muito bacana, porque cada vez mais eles assumem o protagonismo e nós apenas damos suporte.

De onde vem essa sua preocupação em envolver os jovens e priorizar o protagonismo deles nas entidades e projetos que lidera?
ISHIKAWA: Quando assumi a presidência do Bunkyo em 2019, percebi que as entidades nikkeis enfrentavam problemas principalmente financeiros e administrativos. Essa parte eu sabia resolver, mas queria ir além: adotar como prioridade o protagonismo dos jovens e o fortalecimento dos relacionamentos. E a pandemia de Covid-19, apesar de toda a tragédia, acelerou o uso do digital e abriu novas oportunidades para que os jovens liderassem eventos online. Eles mostraram criatividade, capacidade e vontade de superar desafios. Sempre acreditei que, se damos um objetivo claro e estímulo, eles realizam com excelência.

Durante sua gestão na NEC do Brasil, o senhor também apostou na juventude. Como isso aconteceu?
ISHIKAWA: Na época da NEC, organizamos eventos em universidades como a Politécnica, a Fundação Getúlio Vargas e o ITA, para atrair estagiários. Muitos desses jovens eram efetivados e enviados para treinamentos no Japão. Chegamos a ter 50 engenheiros e administradores brasileiros sendo treinados aqui. Foi um período maravilhoso, em que vários desses jovens se tornaram líderes e até presidentes depois. Sempre acreditei que é preciso “baixar ao nível deles” para dialogar e trabalhar junto, e não esperar que eles cheguem até nós.

O senhor sempre viajou pelo Brasil incentivando entidades nikkeis a promover o protagonismo jovem.
ISHIKAWA: Exatamente. Durante minha presidência no Bunkyo, viajei pelo Brasil inteiro. São cerca de 420 entidades nikkeis espalhadas pelo país, e em todas eu dizia: “Vocês têm que promover os jovens”. E muitos aceitaram esse desafio, colocando os jovens como organizadores de festivais e eventos. Lembro do caso de Goiânia, onde os presidentes tinham apenas 25, 26 anos, e fizeram um trabalho magnífico. Esse estímulo faz toda a diferença, e vi isso também quando acompanhei em Nova York a passeata da Greta Thunberg, onde 250 mil jovens foram às ruas com coragem e liderança.

O senhor comentou que até em suas empresas aplica esse princípio de dar espaço aos jovens. Como isso se reflete no dia a dia?
ISHIKAWA: Nas minhas empresas, inclusive na de construção civil, contratamos jovens engenheiros e engenheiras recém-formados. Muitos começam como estagiários e depois assumem responsabilidades grandes, acompanhados de profissionais mais experientes. É claro que dá trabalho treinar, conversar e orientar, mas a dedicação deles é impressionante. O entusiasmo do jovem diante de cada desafio novo traz qualidade ao trabalho que alguém mais acostumado poderia fazer de forma mecânica.

Olhando para sua própria vida, de onde vem essa filosofia de estimular os jovens e acreditar no futuro?
Acredito que para crescer na vida precisamos de preparo e de sorte — e sorte também envolve algo lá de cima. Trabalhei muito, cheguei a trabalhar 14 ou 15 horas por dia. Com 37 anos, me tornei diretor financeiro da Ericsson, uma empresa sueca, em meio a executivos muito mais velhos e experientes. Foi um desafio enorme, mas que me formou. Por isso, sinto que devo criar essas mesmas oportunidades para os jovens de hoje, para que também enfrentem seus desafios e cresçam.

Como sua infância e juventude moldaram essa trajetória até chegar a posições de liderança?
ISHIKAWA: Eu praticamente não consegui usufruir da minha infância. Comecei a trabalhar cedo com minha mãe, que era muito exigente. Estudava à noite e trabalhava de dia, levava marmita, dormia pouco. Queria ser médico, mas não pude; acabei fazendo contabilidade e depois economia. Acredito que trabalho e estudo não matam ninguém — pelo contrário, criam o alicerce da vida. Esse esforço, esses sacrifícios, foram a base que me permitiram chegar até aqui. E é isso que hoje passo adiante aos jovens: que vale a pena se dedicar, porque o esforço constrói o futuro.

O senhor destacou, em sua palestra no 65º Kaigai Nikkeijin Taikai, que os jovens nikkeis não devem ser apenas descendentes de japoneses, mas também todos aqueles que amam a cultura japonesa. 
ISHIKAWA: Eu acredito que, se não abrirmos espaço para quem não é descendente, mas admira e respeita nossa cultura, a comunidade nikkei terá dificuldades de se manter viva no longo prazo. É fundamental que essas pessoas sejam acolhidas, porque elas ajudam a renovar, diversificar e prolongar a nossa cultura. O futuro da comunidade nikkei passa pela capacidade de integrar todos aqueles que compartilham do mesmo respeito e admiração pelo Japão, independente de sangue.

Em seu discurso, o senhor também falou sobre as “novas conexões” necessárias em um mundo cheio de incertezas.
ISHIKAWA: Nós, nikkeis, sabemos o que é viver entre duas culturas e construir identidade em meio a fronteiras. Carregamos o orgulho da tradição japonesa, mas também somos filhos dos países que nos acolheram. Essa experiência nos dá uma responsabilidade especial: promover diálogo, criar pontes e mostrar que diversidade é riqueza, não ameaça. Num mundo com guerras, fake news e intolerância, os nikkeis podem ser agentes de equilíbrio, de cooperação e de paz. Acredito que nossa vivência histórica nos preparou para ser exatamente isso: construtores de conexões humanas em tempos de incerteza.

Para encerrar, que mensagem o senhor gostaria de deixar?
ISHIKAWA: No evento que realizamos em Nagoya, trabalhamos essa ideia e eu acho muito importante: você não é 50% brasileiro e 50% japonês. Você é 100% brasileiro e 100% japonês. Esse é um conceito forte e fundamental, uma nova lógica para os brasileiros e descendentes no Japão. Eu sempre digo: não criem “cidadãos de fábrica”, mas criem cidadãos japoneses. Quando os pais falam com seus filhos aqui no Japão, precisam ter em mente que estão formando cidadãos japoneses. Mais tarde, esses jovens podem decidir ser cidadãos americanos, brasileiros ou de outro país, mas o essencial é que, enquanto estão aqui, tenham condições de se desenvolver como cidadãos japoneses. Isso significa garantir educação, oportunidades e valores sólidos. É isso que considero um recado fundamental para os jovens e para os pais.

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