Reportagem especial com produtores de conteúdo digital no Japão. Edição 619 da Revista Alternativa.
Bruna Fujikawa cria conteúdos para milhares de pessoas em sua página @bruna_fujikawa e afirma que “meu papel é ensinar, inspirar e compartilhar”. Sua alegria de viver e seriedade em produzir vídeos e histórias são refletidas nas suas palavras e na história de superação. Leia a entrevista na íntegra:
Bruna, nos conte como começou sua vida de produtora de conteúdo?
BRUNA: Eu comecei no YouTube há cerca de 8 anos. Sempre tive essa vontade, achava incrível ver as blogueiras recebendo produtos e mostrando suas rotinas — eu achava aquilo o máximo. Era um sonho distante, algo que eu queria, mas não imaginava que pudesse acontecer comigo. Depois de um ano morando no Japão, vivendo um quadro de depressão e ansiedade, conversando em sessões com minha psicóloga, comentei sobre esse desejo. Ela me incentivou a gravar, e eu resolvi tentar. Postei meu primeiro vídeo falando sobre meu primeiro dia de trabalho no Japão e também sobre tudo o que estava acontecendo comigo, inclusive a depressão e as crises de ansiedade, com a intenção de apagar logo depois. Mas, para minha surpresa, esse vídeo teve mais de 20 mil visualizações, mesmo eu não tendo quase nenhum inscrito. Foi a partir dali que tudo começou. Recebi mensagens de pessoas dizendo que se identificaram com os sintomas que eu descrevia, que perceberam que também estavam passando por aquilo sem entender, e que decidiram procurar ajuda. Ao mesmo tempo, começaram a surgir curiosidades sobre o trabalho no Japão e pedidos para eu mostrar mais da vida aqui. As pessoas passaram a me procurar tanto no YouTube quanto no Instagram. Foi nesse momento que percebi que, além de dividir a minha vida, eu poderia ajudar as pessoas através dos conteúdos.
O que significa para você produzir conteúdo e ser influenciadora?
BRUNA: Para mim, ser influenciadora vai muito além dos números. Claro, os números são importantes, eles abrem portas e mostram alcance. Mas o verdadeiro significado está em construir comunidade. Não adianta ter milhões de seguidores se não existe uma conexão real, se as pessoas não se sentem parte daquilo que você compartilha. Ser influencer é criar movimento, gerar identificação e inspirar pelas ideias e pela forma como enxergamos o mundo. É quando alguém muda um hábito, toma uma decisão ou se sente acolhido porque viu algo no meu conteúdo que fez sentido para a vida dela. Nesse momento, eu percebo que estou, de fato, influenciando. É essa representatividade, essa troca verdadeira com quem me acompanha, que dá sentido a tudo o que eu faço.
“No conteúdo de maternidade, acontece a mesma coisa: seguidoras me dizem que passaram a aplicar no dia a dia com seus filhos algo que aprenderam comigo. Esse retorno mostra o impacto real do que compartilho. Na hora de escolher temas ou parcerias, sigo uma regra simples: só falo do que é relevante para a minha vida e para a comunidade que me acompanha.”
Como lidar com a responsabilidade e o impacto?
BRUNA: Eu acredito que uma das maiores responsabilidades de um influenciador é mostrar a vida real. A internet muitas vezes passa a impressão de que tudo é perfeito, mas não é assim. Desde o começo, escolhi compartilhar também os meus momentos de vulnerabilidade: minha adaptação no Japão, crises de depressão e ansiedade, perrengues da rotina e até os desafios da maternidade. Mostrar que problemas existem, que nem tudo dá certo o tempo todo, e principalmente como eu lido com cada situação, é uma forma de responsabilidade. Porque quando mostramos a vida como ela é, damos às pessoas a chance de se identificarem e de perceberem que não estão sozinhas. Até hoje, mesmo depois de 8 anos, recebo mensagens de pessoas dizendo que decidiram procurar ajuda porque se reconheceram nos meus vídeos. Outros me contam que aprenderam algo sobre o Japão porque eu mostrei do meu jeito — o olhar de quem também não domina o idioma, mas vai aprendendo no caminho. No conteúdo de maternidade, acontece a mesma coisa: seguidoras me dizem que passaram a aplicar no dia a dia com seus filhos algo que aprenderam comigo. Esse retorno mostra o impacto real do que compartilho. Na hora de escolher temas ou parcerias, sigo uma regra simples: só falo do que é relevante para a minha vida e para a comunidade que me acompanha. Influenciador não é modelo de vitrine que posa para várias marcas sem conexão. Influenciar é criar confiança, é vender uma ideia. Por isso, acredito que o influenciador precisa ser “de time”: vestir a camisa de uma empresa e mostrar que realmente confia nela. Já recusei parcerias porque testei e não achei o produto bom — não faria sentido incentivar as pessoas a gastarem dinheiro em algo que eu mesma não usaria. Essa coerência é o que dá credibilidade ao meu trabalho. No fim, o meu papel é ensinar, inspirar e compartilhar. Influencio tanto pelas minhas falas quanto pelo exemplo do que vivo, mostrando meu olhar sobre as coisas. E é isso que gera impacto: ser verdadeira, coerente e manter a confiança de quem está do outro lado.
Como acontece a interação com os seguidores?
BRUNA: Ao longo desses oito anos, recebi inúmeros feedbacks e vivi muitas histórias com quem me acompanha. A minha relação com os seguidores é de troca verdadeira, uma comunidade que vai muito além de números. Eu compartilho minhas experiências e, em contrapartida, recebo histórias, conselhos e até apoio em momentos difíceis. Muitas vezes, quando exponho uma dificuldade, minhas seguidoras prontamente me ajudam — e isso cria uma conexão muito bonita. Já tive retornos que me marcaram profundamente, como mensagens de pessoas que decidiram procurar ajuda médica depois de se identificarem com conteúdos que compartilhei sobre saúde mental, ou mães que me disseram que passaram a aplicar no dia a dia com seus filhos dicas que eu mostrei sobre maternidade. Esses feedbacks me lembram todos os dias da importância do meu trabalho. No fim, o que eu construí foi uma comunidade engajada, onde todo mundo ajuda todo mundo. Eu ajudo levando informação e experiências, mas elas também me fortalecem e me inspiram muito. Essa troca é, sem dúvida, uma das maiores riquezas de ser influenciadora.
Bruna, contra um pouco dos bastidores e perrengues?
BRUNA: Manter constância é um dos maiores desafios de quem cria conteúdo. Mesmo tendo uma rotina mais flexível do que a de muitas pessoas que trabalham longas horas em fábrica ou escritório, conciliar maternidade, casa, empreendedorismo e produção de conteúdo não é simples. Exige muita organização, disciplina e criatividade. No meu caso, a parte mais trabalhosa é a edição. Eu gosto de entregar vídeos criativos, com transições e detalhes diferentes, e isso leva tempo. Entre pensar no roteiro, gravar e editar, muitas vezes preciso dividir um único conteúdo em várias etapas ao longo da semana para conseguir dar conta. Além disso, existem os prazos de marcas — às vezes muito apertados — que me fazem gravar em feriados ou finais de semana, mesmo quando eu queria estar descansando. E talvez esse seja o maior perrengue: na minha vida, lazer nunca é só lazer. Uma viagem, um passeio em família, até uma ida simples ao mercado pode virar conteúdo. Minha cabeça não desliga, estou sempre pensando em ângulos, falas, edições. É como se eu nunca estivesse 100% de folga, porque qualquer momento pode se transformar em material para as redes. Isso é maravilhoso porque meu trabalho está conectado com a minha vida, mas também é desafiador porque sinto que nunca paro de verdade. No fim das contas, os bastidores nem sempre são glamourosos, mas são esses esforços de organização, entrega e até de abrir mão do descanso que garantem constância e qualidade em tudo que compartilho.
E como você lida com os desafios da exposição?
BRUNA: Um dos meus maiores desafios sempre foi me expor. Estar na internet significa mostrar tanto o lado bom quanto o ruim, e as pessoas vão te amar ou te criticar pelo mesmo motivo. Tem gente que admira a forma como você pensa e se posiciona, enquanto outras não gostam justamente disso — e tudo bem, faz parte. No começo, eu tinha mais dificuldade em lidar com as críticas. Me questionava muito, levava para o lado pessoal. Com o tempo, aprendi a filtrar e focar no que realmente importa: nas pessoas que se identificam comigo e que encontram valor no que compartilho. Depois de anos produzindo conteúdo e estudando muito, aprendi até a transformar hater em engajamento rs. A maior lição que tirei disso tudo é a importância de ter identidade. Não é porque alguém não gostou do que eu disse que eu preciso mudar quem eu sou ou apagar um conteúdo. Nós não estamos aqui para agradar todo mundo — e é justamente isso que nos torna únicos.
Quais são seus planos e ideias para o futuro?
BRUNA: Eu tenho muitos planos, projetos e sonhos em andamento. Mas a verdade é que grande parte deles exige tempo, dedicação e estrutura — e esse é justamente um dos meus maiores desafios hoje. A execução demanda energia, organização e muitas horas, e conciliar tudo isso com minha rotina de mãe, esposa, dona de casa e empreendedora não é simples. Apesar disso, continuo firme no meu objetivo principal: fortalecer cada vez mais a comunidade que eu construí. Quero que meu espaço na internet siga sendo um ponto de apoio, troca e inspiração para brasileiros que vivem no Japão ou que sonham em vir para cá. Além disso, desejo expandir meus projetos digitais, abrir novas frentes de trabalho e dar vida a ideias que ainda estão no papel. O que eu mais sonho para o futuro é ter estrutura e equipe para conseguir tirar do papel tudo o que já planejei. Porque vontade não falta — o que falta é tempo. Mas sei que cada passo que eu já dei até aqui foi fundamental para construir uma base sólida, e é sobre ela que eu quero continuar crescendo.
