Baseio tudo que publico em fontes confiáveis. Ed. 620.

Piti Koshimura é autora do blog e do podcast Peach no Japão, onde compartilha o cotidiano e a cultura japonesa além dos estereótipos. Residente em Tóquio, atua também como consultora de viagens, ajudando brasileiros a explorarem o Japão de forma autêntica e personalizada. É idealizadora e curadora da plataforma @momonoki_jp, dedicada à difusão de conteúdos sobre cultura, sociedade, história e arte japonesa.

Como nasceu a ideia de transformar sua experiência, vida diária e paixão em conteúdo?
PITI: O que me inspirou a criar conteúdo foi a vontade de transmitir um pouco da cultura e o dia a dia do Japão, longe dos estereótipos que muito comumente surgem quando se fala sobre o país. Quando passei a produzir conteúdo com mais consistência para as redes Peach no Japão, em 2016, era muito frustrante ver que os vídeos mais visualizados sobre o país feitos por brasileiros, no YouTube, eram de temas como “coisas bizarras do Japão” e “comidas japonesas estranhas”, com milhões de views. Hoje, no Peach no Japão, eu compartilho conteúdos sobre cultura, de uma forma geral, cotidiano, turismo mais fora da rota, além de arquitetura, que é um assunto pelo qual tenho um grande interesse desde criança. Na Momonoki, os conteúdos são feitos em colaboração com os professores da plataforma e abordam principalmente cultura, sociedade, história e arte.

Produzir conteúdo digital vai além de números e engajamento? Qual é o papel educacional e social que você sente que exerce em seu público?
PITI: Quando penso em pautas, números e engajamento acabam não sendo a prioridade. Compartilho aquilo que está no meu campo de interesse, com a preocupação de trazer alguma informação relevante ou nova para a minha audiência, nem que seja algo simples. Como a maior parte dos meus seguidores não mora no Japão, eu penso no que pode ser interessante compartilhar para quem não está aqui no dia a dia, mesmo que possa ser algo banal. Pode ser um detalhe das embalagens dos produtos japoneses ou o visual das ruas estreitas dos bairros residenciais, fazendo um contraponto àquela imagem clássica que as pessoas têm de Tóquio, com prédios altos e cheios de luminosos, por exemplo.

“Tento sempre confirmar tudo o que posto, pesquisando em fontes confiáveis e reunindo dados. Me preocupo também em evitar generalizações, então tento escolher as palavras ao falar, por exemplo, “aqui no Japão é comum tal coisa” ao invés de “aqui no Japão as coisas são assim…”.”


Como você encara a responsabilidade de educar, ensinar, trocar opiniões e conteúdos via redes sociais? Você sente que o seu conteúdo gera mudanças reais na vida das pessoas?
PITI: Entendo que cada vez mais as pessoas buscam se informar nas redes sociais, então eu tento sempre confirmar tudo o que posto, pesquisando em fontes confiáveis e reunindo dados. Me preocupo também em evitar generalizações, então tento escolher as palavras ao falar, por exemplo, “aqui no Japão é comum tal coisa” ao invés de “aqui no Japão as coisas são assim…”. Fazer afirmações de forma categórica pode até atrair mais público e gerar mais engajamento, mas acaba criando uma imagem que não é real, já que aquela afirmação pode não ser verdadeira em todas as situações. Então, cada conteúdo que produzo ou compartilho tem uma preocupação por trás, porque sei que muitas pessoas acompanham o meu perfil para se informarem e, a partir daí, moldarem a sua visão de Japão. Existe uma responsabilidade enorme envolvida nas mãos de qualquer pessoa ativa nas redes sociais, seja de forma profissional ou não, com maior ou menor alcance.

Como é a sua relação com o seu público? Tem história que te marcou e fez você perceber a importância do que faz?
PITI: Gosto bastante de trocar com o pessoal que me segue, apesar de não conseguir responder todas as mensagens. Acabo compilando e compartilhando algumas mensagens sobre um determinado tema para tornar as discussões mais ricas, a partir de várias experiências, não somente a minha. E já aconteceu também de ser corrigida, sempre de forma muito educada e empática. Fico feliz ao receber mensagens de seguidores falando que meu conteúdo os faz ver o Japão de uma forma diferente ou que ajudei de alguma forma a aproveitarem a viagem por aqui por entenderem melhor a cultura. Já recebi também que escutar o podcast os ajuda a relaxar depois de um dia de trabalho. Aliás, sobre o podcast e sobre os cursos da Momonoki, durante a pandemia eu recebia comentários de como esses conteúdos estavam sendo importantes para atravessar aquele momento difícil.

Muitos levantam também a questão de identidade e pertencimento, que eu já explorei algumas vezes, ao falar que eu não gostava de ser nipodescendente quando era mais nova, muito por conta dos estereótipos relacionados ao Japão e aos nikkeis, e de acabar sendo percebida como diferente dos outros. Ao tornar isso público, percebi que muitas pessoas também vivenciaram isso e passei a receber mensagens bastante emotivas de como esses diálogos eram importantes em termos de amadurecimento e crescimento pessoal.

Das histórias que me marcaram, teve uma artista que elaborou uma obra muito bonita inspirada no Ma, uma noção japonesa que eu já abordei algumas vezes no meu blog e podcast, com base nos estudos da sensei Michiko Okano. Teve também, recentemente, o caso de uma estudante de jornalismo que escolheu fazer seu TCC analisando como o meu podcast ajudaria a combater estereótipos, trazendo um olhar mais próximo do cotidiano japonês. Fiquei muito surpresa. E teve também a história de um seguidor e participante dos cursos da Momonoki que viajou do Rio a São Paulo para poder estar no Momotalks, um evento presencial que organizei em 2022, reunindo professores da plataforma. É sempre muito emocionante ter esse reconhecimento e esse contato mais direto com quem me acompanha.

Produzir conteúdo de qualidade dá trabalho. Quais são os maiores desafios do dia a dia para manter constância e criatividade?
PITI: O desafio maior, para mim, é manter a frequência de produção ao mesmo tempo em que atuo em outras frentes, como a consultoria de viagens e a gestão da Momonoki. Ideias não faltam. Acabam vindo de situações do dia a dia, de conversas, de exposições e lugares que visito, ou até mesmo de coisas banais. Vou deixando tudo anotado, mas acabo priorizando qualidade sobre constância, então não consigo dar conta de fazer posts diários no feed, por exemplo, mesmo que essa seja a orientação dos coaches de internet para quem quer crescer.

Expor-se nas redes sociais também tem seu lado negativo: críticas, ataques, pressão. Como você lida com esses momentos mais difíceis?
PITI: Foram pouquíssimas vezes em que recebi algum tipo de ataque ou comentário negativo. Numa delas, eu tentei dialogar, mas quando percebi que a conversa não iria avançar, desisti. Tem coisas que não valem a nossa energia e o nosso tempo.

O que você sonha em conquistar daqui para frente?
PITI: Um sonho seria publicar um livro, e não necessariamente sobre o Japão.

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1 Comment
  1. Cinthia Naomi Murakami 3 meses ago

    Bom

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