“É cor de quê?” Ed. 635

O jeito brasileiro de enxergar as cores, e como isso influencia nossa imagem, humor e presença

Existe uma pergunta muito brasileira que diz mais sobre personalidade, memória afetiva e estilo do que parece:

— “Mas isso é cor de quê?”

Porque, convenhamos… para o brasileiro, bege raramente é apenas bege.

É “cor de areia de praia”, “cappuccino”, “doce de leite”, “uniforme antigo da escola”, “parede de apartamento alugado” ou até “cor de Band-Aid”.

E talvez seja justamente aí que mora a mágica da percepção das cores: nós não enxergamos apenas tons. Enxergamos histórias, referências, emoções e experiências.

Sabendo disso, as marcas criam nuances de cores com identidade afetiva. Alguns exemplos são: a Pantone®️, com as cores do ano e de cada estação, em escala global; e, no Brasil, grandes referências de cores por meio das tintas Coral e Suvinil.

O Brasil traduz cores de maneira afetiva

Uma pessoa do interior do Nordeste pode reconhecer um tom de amarelo como “cor de caju maduro”. Alguém do Sul talvez diga “mostarda”. No Sudeste, pode virar “amarelo queimado”.

E, no Japão, muitos brasileiros começam a chamar esse mesmo tom de “camel”, porque passam a conviver mais com referências internacionais e minimalistas.

As cores mudam de nome conforme:

a região;
a geração;
a cultura;
o repertório visual;
e até a profissão.

Quem trabalha com moda fala “terracota”. Quem cozinha fala “cor de páprica”. Quem gosta de decoração chama de “telha”. E a avó provavelmente dirá: “marrom avermelhado”. Todos estão certos. 

Homens e mulheres enxergam cores de formas diferentes? Nem sempre biologicamente — mas culturalmente, sim.Muitos homens brasileiros cresceram usando um repertório mais limitado de nomes:

azul;
verde;
vermelho;
preto;
branco.

Enquanto muitas mulheres foram incentivadas desde cedo a perceber nuances:

rosé;
fúcsia;
vinho;
marsala;
lavanda;
verde-oliva;
azul-petróleo.

Por isso, aquela clássica cena:

— “Amor, pega a blusa bege.”

— “Qual bege?”

E, honestamente? Ele tem razão.

Porque existem dezenas de beges. E cada um comunica algo diferente.

Cor também é posicionamento

As pessoas costumam achar que escolher roupa é apenas estética. Mas a verdade é que a cor muda completamente a mensagem que transmitimos. Um look preto pode passar:

elegância;
autoridade;
mistério;
sofisticação.

Mas, dependendo da modelagem e do contexto, também pode transmitir:

distância;
rigidez;
cansaço.

O branco pode comunicar:

leveza;
limpeza;
refinamento;
paz.

Ou parecer frio e impessoal.

Já tons terrosos costumam criar sensação de:

acolhimento;
maturidade;
naturalidade;
confiança.

Não é coincidência que tantas marcas de café, arquitetura e lifestyle usem essa paleta atualmente.

Não à toa, também, que uma das referências mais elegantes do azul-turquesa seja o “Tiffany®️”, que registrou sua tonalidade no catálogo de cores da Pantone®️, atraindo ainda mais prestígio pela exclusividade das caixinhas de joias mais famosas do mundo.

O Japão muda nossa percepção visual

Muitos brasileiros que vivem no Japão percebem isso sem notar conscientemente. Com o tempo, começamos a:

usar tons mais neutros;
reduzir estampas;
observar mais harmonia visual;
valorizar combinações minimalistas;
prestar atenção em textura e acabamento.

O ambiente influencia o olhar. As estações do ano no Japão também educam visualmente:

o rosa suave da primavera;
os verdes vibrantes do verão;
os tons queimados do outono;
os cinzas elegantes do inverno.

Tudo isso refina nossa percepção de cor sem que a gente perceba. E o que a sua cor comunica hoje?

Talvez a pergunta mais interessante não seja: “Que cor é essa?” Mas: “Que sensação essa cor desperta em mim e nos outros?” Porque imagem não é apenas o que vestimos. É a atmosfera que criamos ao entrar em um ambiente. Algumas pessoas vestem cores para aparecer. Outras, para pertencer. Outras, para se proteger.

E algumas começam a usar determinadas cores exatamente no momento em que decidem ocupar um novo espaço na vida.

No fim, cor nunca foi só cor. É memória. É cultura. É identidade. É presença.

Além disso tudo, ainda há a questão da cartela de cores pessoais, que ajuda nessa percepção e na sensação que cada cor transmite. E talvez seja por isso que o brasileiro continue perguntando:

— “Tá… mas isso é cor de quê?”

Como você costuma chamar as cores que mais usa ou gosta? Deixe-me saber por meio do QR Code no final da página!

Próxima edição: Existe um jeito de aproveitar tendências sem jogar dinheiro fora ou se distanciar da própria essência?

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