Fórum de Educação da Taiyo Corporation reúne, em Ibaraki, pesquisadores, educadores e jovens para discutir a educação de crianças estrangeiras no Japão
Por Ewerthon Tobace, de Joso
O sábado, dia 4 de outubro, prometia uma chuva fraca. O clima fresco de início de outono trazia aquele tipo de melancolia que antecede as mudanças — de estação, de ciclo, de pensamento. E o céu, encoberto, parecia acompanhar o tema do dia: a incerteza e a esperança de um país em transformação.
No auditório do Centro de Educação Continuada da Cidade de Joso, em Ibaraki, o 1º Fórum de Educação da Taiyo, discutiu métodos pedagógicos e políticas públicas. Mais que isso, discutiu-se o modo como uma sociedade olha para suas crianças — e, sobretudo, para aquelas que nasceram ou cresceram entre línguas, códigos e fronteiras. Era uma manhã para repensar o verbo “incluir”: não como concessão, mas como ato de reconhecimento.
Márcia Kishi, CEO da Taiyo Corporation, lembrou que a Taiyo, há quase trinta anos, não emprega apenas pessoas — acompanha famílias inteiras que, ao escolher o Japão, também escolheram enfrentar o labirinto da adaptação cultural e linguística. “Cuidar de pessoas é também cuidar da educação de seus filhos”, disse, com a serenidade de quem vive o tema todos os dias. Para Márcia, o Fórum não nasceu de um projeto de marketing, mas de um incômodo: o de ver crianças perdidas entre sistemas escolares que não as entendem, e pais que muitas vezes não sabem como ajudá-las. “Empresas e instituições não podem se limitar à lógica do trabalho”, afirmou. “Há um elo invisível entre o emprego, o idioma e a dignidade.”
Maturidade social
O sociólogo Angelo Ishi, professor da Musashi University e um dos pioneiros nos estudos sobre migração nipo-brasileira chegou com gráficos e uma chave de leitura: o lugar que os brasileiros ocupam nas estatísticas do Japão determina o quanto eles entram — ou não — no campo de visão do poder público e da mídia. “Caímos do quinto para o sexto lugar entre as nacionalidades mais numerosas”, lembrou. Parece detalhe, mas não é: quando a câmera panorâmica do Estado se move, quem desce um degrau some do enquadramento. Ele mostrou que quatro em cada dez brasileiros vivem no Japão há mais de 20 anos; mais de 11% estão há três décadas; e 5,5% já nasceram em solo japonês. Não estamos falando apenas de “mão de obra”, mas de famílias com raízes, crianças, projetos — vida cotidiana.
O professor Daisuke Onuki, da Universidade Tokai, explicou que, por décadas, o Japão tratou crianças estrangeiras sob a lógica da escolarização opcional; o que a comunidade pedia, porém, era obrigatoriedade de educação. Não é jogo de palavras. Falar em “educação obrigatória” (e não “matrícula obrigatória”) abre caminho para reconhecer percursos diversos — inclusive escolas estrangeiras — e, a partir daí, garantir o que faltou até aqui: apoio público. Onuki trouxe números recém-divulgados: cerca de 163 mil crianças estrangeiras estão nas escolas públicas; 11 mil estudam em escolas “de fora do sistema” (brasileiras, internacionais etc.); e 5% sequer estão matriculadas — algo impensável para crianças japonesas.
A jovem Hitomi Kira trouxe o debate de volta ao chão da escola. Com voz serena, contou que veio ao Japão aos 15 anos, com três de estudo de japonês, e descobriu cedo que adaptação não é linha reta: no chugakko (Ensino Fundamental 2), foi da curiosidade geral à exclusão silenciosa por ter se sentado “com o grupo errado”. Faltou rede. Sobrou solidão. Até que encontrou um colégio de créditos flexíveis, com muitos alunos estrangeiros, onde amizade e idioma se tornaram abrigo.
Experiências e superação
Quando Érica Muramoto começou a falar, o silêncio da sala mudou de tom — de expectativa para escuta. Doutora pela Universidade Waseda e pesquisadora dedicada à juventude multicultural, perguntou como “educar” num país onde parte dos alunos traduz a própria existência todos os dias? Como preparar professores para uma sala de aula que já não é monolíngue, nem monocultural, mas ainda é tratada como se fosse?
Diego Utiyama, CEO da Spotted Recruit, contou que, nascido no Brasil, crescido no Japão, formado em escola brasileira, se sente cidadão de duas culturas e de muitas versões de si mesmo. Falou com humor e franqueza sobre o início: a infância entre colegas japoneses que não o viam como japonês e brasileiros que o chamavam de “japonês demais”. “Passei metade da vida tentando me encaixar. A outra metade descobrindo que não precisava.” Utiyama contou como o estudo e o domínio dos dois idiomas foram seu passaporte para outro patamar profissional e existencial.
A sociedade como sala de aula
Ao final do dia, as falas começaram a se cruzar como ecos. Ishi, Onuki, Kira, Hachiman, Muramoto, Utiyama — cada um, à sua maneira, falava da mesma coisa: o direito de pertencer. O Fórum revelou que o bilinguismo é apenas a superfície de um tema maior — o da identidade em trânsito. E que a escola, nesse contexto, deixa de ser apenas espaço de ensino e se transforma em espelho da sociedade.
No encerramento, o vice-cônsul do Consulado-Geral do Brasil em Tóquio, Flávio Bastos, devolveu ao público uma síntese afetiva: aprender não termina com o diploma — começa com ele. Lembrou a própria ilusão juvenil de “não precisar mais estudar” e, vinte anos depois, celebrou o contrário: estudar é oportunidade, é prazer, é alavanca. Citou Cora Coralina — “Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça” — para afirmar o espírito do Fórum: educação como recomeço que cabe em qualquer idade, em qualquer origem.
O Fórum de Educação é a expressão mais recente da transformação da Taiyo Corporation: uma empresa que ultrapassa as fronteiras do mercado e assume uma função pública — a de articular pessoas, ideias e instituições em torno de uma causa que é de todos. “Quando uma criança estrangeira se sente acolhida”, disse Márcia Kishi, “todos nós ganhamos como sociedade.”