Em época de crise é fácil fabricar inimigos. Artigo da edição 616 da Alternativa
Por Renato de Freitas, psicólogo e psicanalista
Morar fora do país nunca é apenas uma decisão logística. É, antes de tudo, uma travessia existencial.
Quem deixa sua terra natal carrega muito mais do que malas. Leva consigo memórias, afetos, códigos culturais e, muitas vezes, a incômoda sensação de precisar justificar sua presença em cada esquina. A recente eleição japonesa lançou luz sobre uma realidade que muitos já sentem na pele há anos: o crescimento da hostilidade institucional em relação aos estrangeiros. Quando um partido amplia sua força no Congresso com discursos abertamente contrários à imigração, estamos diante de um recado simbólico, um sinal coletivo de exclusão que fere fundo a psique de quem diariamente tenta se integrar.
Freud, em seu texto “O Estranho” (Das Unheimliche), fala sobre aquilo que, ao mesmo tempo, nos soa familiar e inquietante. O estrangeiro ocupa justamente esse lugar ambíguo: é humano como nós, mas sua presença evoca tudo aquilo que tentamos reprimir — nossas inseguranças, o medo do diferente, a necessidade de controle.
No Japão, país historicamente marcado por ciclos de isolamento e abertura, o estrangeiro frequentemente representa esse desconforto simbólico. Um espelho do que a sociedade tenta manter afastado: o imprevisível, o outro, o que escapa ao molde.
XENOFOBIA
A xenofobia é um medo irracional do diferente. É uma inquietação profunda diante daquilo que, paradoxalmente, nos é familiar. O estrangeiro encarna uma figura que desestabiliza certezas e desafia identidades que pareciam sólidas. Ele reflete nossa própria humanidade, mas com gestos, línguas e hábitos que abalam a normalidade estabelecida. Na xenofobia o outro vira o alvo ideal. Assim, reafirma-se uma identidade nacional às custas da exclusão.
O problema do nacionalismo distorcido, quando vira populismo, é que ele se alimenta do medo. Medo da escassez, da crise, do desemprego. Em tempos assim, é fácil fabricar inimigos. E os estrangeiros se tornam alvos convenientes. São acusados de problemas que, na verdade, têm raízes muito mais complexas. Esse roteiro é antigo, conhecido e repetido — mas não menos doloroso por isso.
AOS BRASILEIROS
Ser estrangeiro não é errado. Há leis que garantem esse direito. No meu caso, por exemplo, morei um ano no Peru, e essa experiência transformou minha maneira de ver o mundo. Cheguei com os medos comuns: o receio de não ser bem-vindo, o peso da adaptação, a falta de referências afetivas. Mas fui acolhido por uma família generosa, que me tratou com carinho e respeito. Saí de lá mais inteiro.
Aos brasileiros, cuidem com carinho da sua noção de identidade. Resolvam-se bem. A mídia tem um papel crucial nesse processo, mas nós, enquanto comunidade, também temos. Precisamos contar nossas histórias. Precisamos dar rosto, voz e corpo à experiência migrante. Isso é resistir à desumanização. É afirmar, com todas as letras: existimos. Contribuímos. Sentimos.
Renato de Freitas, @entre.palavraseefetos
Bom Dia.
A matéria se faz necessária para esclarecer aos estrangeiros e encorajar a prosseguir com seus planos e conquistas no Japão ou em qualquer lugar do Mundo.
Realmente, “Existimos, Contribuímos e Sentimos”.
A esperança é que todas as barreiras sejam derrubadas com Fé e Amor ao Próximo!