Artigo de Aline Fraga.
A saga dos estilos, parte 3.
Romântico: detalhes que carregam história
Um laço no cabelo, uma manga bufante, a transparência de uma renda sobre a pele, cortes e tecidos que parecem ter saído de um filme da Disney ou de Bridgerton. Há detalhes que atravessam séculos e continuam despertando a mesma sensação: muita feminilidade e a história de cada época vivida, seja com suavidade ou não.
Mas, antes de viajar pelo tempo, vale separar duas coisas: o estilo romântico, dentro da classificação contemporânea dos sete estilos universais, não é um período histórico, e sim uma forma de descrever preferências de imagem. Já as roupas de outras épocas são parte do repertório visual, de acordo com fatos ocorridos em cada período, e que hoje podemos reconhecer como romântico. Essa distinção nos permite buscar referências sem fingir que uma mulher do século XVI se vestia segundo uma categoria criada muito depois.
Primeira parada: o encanto ornamental do rococó
Na moda europeia de meados do século XVIII, vestidos de seda podiam reunir flores, fitas, laços e rendas em composições elaboradas. O que hoje nos parece delicado era, naquele contexto, também uma demonstração de posição social e de acesso ao luxo. A leveza estava na aparência; por trás dela, havia trabalho, estrutura e riqueza.
É dessa época que podemos emprestar a ideia de ornamentação, mas não necessariamente o excesso. Um pequeno laço em uma blusa atual pode evocar a mesma linguagem sem transformar o visual em figurino.
No século XIX, o volume entra em cena
Nas décadas de 1820 e 1830, a moda associada ao período romântico ganhou mangas amplas, cinturas marcadas e saias cada vez mais cheias. A silhueta tinha presença teatral. Por isso, olhar para ela ajuda a desfazer um equívoco: romântico não significa sempre discreto. A suavidade pode conviver com o volume e com uma boa dose de drama.
Mais adiante, na Belle Époque, rendas, chiffon e camadas delicadas ofereceram outra leitura dessa sensibilidade. Uma criação de Jacques Doucet do início do século XX, preservada pelo Metropolitan Museum of Art, mostra como materiais leves podiam produzir um efeito refinado, mesmo em uma composição volumosa.
Em 1947, Christian Dior voltou a dar destaque à cintura marcada e à saia ampla com o New Look. Não se tratava de repetir o século XIX, mas de criar uma nova silhueta que hoje também conversa com nosso imaginário romântico.
E como o romântico se veste agora?
Hoje, essa linguagem não precisa de um vestido inteiro de renda. Ela pode aparecer em uma estampa floral, em uma gola arredondada, em um tecido que acompanha o movimento do corpo ou em uma cor de contraste suave. Pode estar em um único detalhe, combinado com jeans, alfaiataria ou tênis. Pode carregar o conceito vintage, boho chic ou até mesmo o estilo modesto, muito usado hoje em dia por mulheres recatadas, do lar e cristãs.
Marcas contemporâneas mostram caminhos diferentes. A Cecilie Bahnsen trabalha volumes, mangas bufantes e laços com uma construção quase arquitetônica: delicadeza, sim, mas com força. Já a Simone Rocha mistura tule, renda e flores a peças e proporções inesperadas. Nenhuma das duas reduz o romântico à ideia de uma mulher frágil.
Harajuku: quando os detalhes delicados ocupam a rua
No Japão, Harajuku oferece uma interpretação especialmente interessante. Nas ruas próximas à Takeshita-dōri, convivem muitas subculturas e maneiras de vestir. Entre elas, a moda Lolita explora saias volumosas, laços, rendas e referências históricas em produções completas e assumidamente expressivas. Marcas como Angelic Pretty e BABY, THE STARS SHINE BRIGHT mantêm esse vocabulário vivo, cada qual em seu universo próprio.
É importante não confundir as coisas: a moda Lolita japonesa não é sinônimo do estilo romântico dos sete estilos universais. Ela tem identidade e códigos próprios. O encontro está nos elementos visuais compartilhados: os laços, as rendas, o volume, o prazer de construir uma imagem que parece saída de outra época.
Essa passa a ser a lição mais interessante de Harajuku: delicadeza não precisa pedir licença para aparecer. Ela pode ser tímida em um detalhe ou ocupar uma rua inteira.
Romântico, suave, mas nunca como obrigação
Gostar de flores não obriga ninguém a usar rosa. Preferir roupas suaves não significa parecer infantil. E vestir-se de forma romântica não determina a personalidade, a idade ou o modo de viver de uma pessoa.
O estilo aparece quando escolhemos quais referências fazem sentido para nós. Uma pessoa pode amar a estrutura de um blazer e acrescentar uma blusa de renda; outra pode preferir vestidos fluidos dos pés à cabeça. Ambas podem encontrar sua própria versão do romântico.
A influenciadora irlandesa, ex-bailarina e hoje empresária de uma das maiores marcas de laticínios e produtos naturais, Hannah Neeleman, mais conhecida como @ballerinafarm, carrega um estilo único de mulher do campo, feminina e, ao mesmo tempo, forte. Alguns dias, ela aparece de vestido florido; em outros, de jardineira e camisa branca. O segredo, talvez, seja exatamente esse: ter o poder de escolha do que irá usar em cada ambiente e ocasião.
A marca Chloé, fundada em Paris em 1952 pela estilista franco-egípcia Gaby Aghion, em parceria com Jacques Lenoir, por exemplo:
“Conforme definido pela fundadora Gaby Aghion, os designs românticos, modernos e glamorosos da Chloé personificam as aspirações das mulheres jovens e alcançam enorme sucesso.”
Principais marcos da criação:
- Fim da rigidez: Na época, a alta-costura dominava com roupas sob medida, duras e inacessíveis. Gaby quis libertar as mulheres dessa rigidez (o que hoje conhecemos como estilo clássico).
- Prêt-à-porter de luxo: Ela foi pioneira ao criar roupas prontas para vestir (prêt-à-porter), feitas com tecidos nobres, mas com modelagens leves, fluidas, confortáveis e modernas.
- Origem do nome: O nome “Chloé” foi escolhido por ser feminino, marcante e fácil de pronunciar no mundo todo (vindo do grego clo, que significa folhagem nova).
- Estilo boêmio e romântico: Os desfiles iniciais aconteciam em cafés parisienses famosos, como o Café de Flore e a Brasserie Lipp, aproximando a moda da arte e do intelecto.
- No início da década de 1960, a icônica blusa de seda foi lançada. O modelo se tornou parte essencial do guarda-roupa e da atitude da Chloé.
- A coleção Primavera-Verão de 1994, por exemplo, é etérea e romântica: vestidos de tule diáfano são pintados à mão com motivos inspirados em afrescos arqueológicos da ilha grega de Santorini.
- Sob a direção criativa de Stella McCartney, a Chloé adota uma nova atitude, mais sensual e rock ‘n’ roll, apresentando uma mistura romântica e urbana de lingerie vintage, alfaiataria impecável, calças de cintura baixa características da marca e camisetas estampadas.
A suavidade não é o contrário da força; pode ser justamente a forma escolhida para mostrá-la.
Ao longo dos séculos, laços, flores e mangas amplas mudaram de forma e de significado. O que permanece não é uma regra de vestir, mas uma possibilidade de expressão. E você? Como expressa sua feminilidade ou leveza?
Fontes de pesquisa: search.worldcat.org, ceciliebahnsen.com, shop-us.simonerocha.com, fashionhistory.fitnyc.edu, metmuseum.org, gotokyo.org, angelicpretty.com, babyssb.co.jp, sthealthelook.com.br, chloe.com, @ballerinafarm.











