Orquestrar os detalhes da revista é um enorme desafio. Ed. 637.

Há dez anos na Alternativa, Paulo Roberto Sakamoto acompanha de perto as transformações da revista, da comunidade brasileira no Japão e do próprio modo de fazer comunicação. Atual gerente do Departamento de Arte, ele chegou à empresa em 2016, sem formação específica na área, mas com disposição para aprender, enfrentar desafios e crescer junto com a equipe.

Como foi o começo na Alternativa?
PAULO: Todo começo é difícil, principalmente quando você sai de um lugar calmo, como era meu emprego anterior, e cai de paraquedas em um ambiente dinâmico e criativo como é a Alternativa. Sempre trabalhei sozinho e, quando me deparei com um escritório com mais de 20 pessoas em Shibuya, me assustei e pensei seriamente em desistir no primeiro dia. A minha contratação foi um salto dado no escuro pela direção, porque eu não tinha formação nenhuma e pouca experiência na área. Acho que valeu a pena o risco. Dez anos depois, ainda estou aqui.

Que mudança mais chamou sua atenção na vida dos brasileiros no Japão?
PAULO: Estou no Japão desde 2000, então vi muita coisa acontecer: boas e não tão boas. Antes, os brasileiros viviam permanentemente uma vida temporária, desconfortável de propósito. Emprego temporário, casa temporária, tudo era meio improvisado, porque a qualquer momento o retorno ao Brasil poderia ocorrer. O problema é que muita gente se acostumou com essa vida improvisada e viveu por anos assim, infeliz. A virada de chave foi quando a casa própria no Japão se tornou um sonho possível. Criar raízes no país mudou aquela mentalidade de vida temporária. É muito legal ver as pessoas se arriscando para ter a chance de uma vida melhor. Nesses últimos anos, notamos milhares, sem exagero, de novos pequenos empreendedores que passaram a usar nossos serviços de publicidade e gráfica.

Qual foi uma situação marcante nos bastidores da revista?
PAULO: As pessoas não fazem ideia de como é complicado orquestrar tudo para dar certo no final. Como somos uma publicação periódica, temos que cumprir os prazos, faça chuva ou faça sol. Editorial, arte, comercial e distribuição têm que trabalhar em sincronia. Me lembro de uma ocasião em que conseguimos transformar um limão bem azedo numa limonada refrescante. Há alguns anos, um conteúdo editorial “caiu” minutos antes de enviarmos os dados para a gráfica. Bateu o desespero, porque a revista tem quantidade fixa de páginas e o papel já estava encomendado. Sem tempo para preencher as páginas com outro conteúdo, decidimos, então, deixá-las em branco. Sim! Seis páginas totalmente em branco, com uma mensagem publicitária simples e pequena no final da última página, incentivando os anunciantes a chamar a atenção por meio do simples e do mínimo. O feedback foi muito positivo. Nas edições posteriores, os anunciantes competiam entre si para ver quem tinha o anúncio mais “limpo” e com menos conteúdo.

O que a Alternativa representa para a comunidade?
PAULO: Mais do que representar a comunidade, acho que a Alternativa nos representa. Já testemunhei de perto vários casos em que a comunidade era ouvida por meio das nossas matérias, tanto pelo governo japonês quanto pelas autoridades da Embaixada e dos Consulados. A exposição recente sobre a mídia brasileira no Japão, que também virou matéria desta edição, ilustra bem isso.

Como você vê o atual momento imerso em IA e transformações digitais?
PAULO: Joguei a toalha. É um caminho sem volta. Mas acho que o maior desafio é integrar todas essas ferramentas sem eliminar nossa humanidade. Humanos não são perfeitos, e acho que o excesso de perfeição da IA, tanto em design quanto na criação de textos, vai acabar valorizando o trabalho artesanal de um humano que comete erros. Eu, por exemplo. Mas o que realmente me deixa mais otimista é o aumento das possibilidades por meio da IA. Hoje consigo finalizar projetos em uma fração do tempo que gastaria se fizesse tudo “na mão”. É como tirar o fundo de uma foto no Photoshop em 2016, pixel por pixel, usando o mouse, e passar a usar a abençoada varinha da IA hoje em dia.

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