Na terra do “nada pode”, inovação corre risco e futuro país encurta. Ed. 635

Matéria de capa da edição 635 da Revista Alternativa.

País do “nada pode”!

O jeito japonês está diminuindo a criatividade e a competitividade? 

No Japão, quase tudo funciona. O trem chega no horário, a rua é limpa, o atendimento segue um padrão, o documento tem procedimento, a escola tem regra, a empresa tem hierarquia. A ordem é parte da força do país. Mas essa mesma ordem começa a cobrar seu preço.

Em muitos lugares, antes mesmo de uma ideia ser testada, ela precisa caber no manual. Antes de alguém tentar algo novo, alguém pergunta se aquilo já foi autorizado. Antes do “vamos ver se funciona”, vem o “não dá”. O Japão construiu uma sociedade admirável pela disciplina, segurança e precisão. Mas até que ponto esse excesso de cuidado protege o país e quando ele passa a sufocar sua capacidade de imaginar o futuro?

Governo parou de usar disquetes de computador há menos de dois anos

Os riscos para a inovação da cultura do “não!” 

No Japão, há regra para separar o lixo, para preencher formulário, para entrar na escola, para falar com a prefeitura, para solicitar um documento, para mudar de endereço, para abrir conta no banco, para fazer matrícula, para usar o hospital, para se comportar no trabalho. 

O resultado é visível: o país funciona com uma previsibilidade rara. Trens chegam no horário, filas se organizam, serviços seguem padrões, ruas permanecem limpas, processos são documentados. 

Mas o que acontece quando a regra, criada para organizar, passa a impedir?

A expressão não precisa estar escrita em lugar nenhum para ser entendida por quem vive aqui: “se não está no manual, não pode”. Na prática, isso significa que uma solução simples pode ser recusada porque não existe um procedimento previsto. Um funcionário pode saber o que resolveria o problema, mas não ter autorização para sair do fluxo. 

Em 2024, a Agência Digital do Japão anunciou que havia finalmente eliminado a última regulamentação que ainda exigia o uso de disquetes e outros meios físicos de gravação em procedimentos administrativos. Segundo a agência, 1.033 regras semelhantes já tinham sido derrubadas antes, e a última foi abolida em 28 de junho de 2024. O detalhe mais revelador está na explicação oficial: normas baseadas em papel e presença física foram “amplamente aceitas” na sociedade japonesa, o que gerou pouca pressão para eliminá-las. A frase, em linguagem burocrática, resume um problema cultural profundo: quando um procedimento envelhece no Japão, ele nem sempre é questionado. Às vezes, apenas continua.

JAPÃO: POTÊNCIA TÉCNICA, PAÍS SEM AGILIDADE?

Números para entender o dilema entre excelência, burocracia, inovação e agilidade

4.125.395
Estrangeiros residentes no Japão no fim de 2025. Fonte: Immigration Services Agency / Mainichi

42,7 milhões
Visitantes estrangeiros no Japão em 2025. Fonte: JNTO / Nippon.com 

1.034
Regulações sobre disquetes e mídias antigas eliminadas pelo governo. Fonte: Digital Agency / Reuters

12º
Japão no Global Innovation Index 2025. Fonte: WIPO)

139
Economias avaliadas no Global Innovation Index 2025. Fonte: WIPO 

2º lugar
Japão em famílias de patentes. Fonte: WIPO 

3º lugar
Japão em P&D realizado por empresas. Fonte: WIPO 

6ºlugar 

Japão em sofisticação empresarial. Fonte: WIPO 

67º
Japão em agilidade empresarial no ranking digital da IMD. Fonte: IMD 

24%
Empresas japonesas que já adotaram IA. Fonte: Reuters / Nikkei Research

41%
Empresas japonesas sem plano de usar IA. Fonte: Reuters / Nikkei Research

24 mil
Startups existentes no Japão. Fonte: Le Monde (Le Monde.fr)

O prego que se destaca leva martelada! 

Quantas ideias morrem antes de serem ditas?

Poucos ditados explicam tanto do Japão quanto este: “o prego que se destaca leva martelada”. 

A frase atravessa escola, empresa, família e vida pública como uma regra invisível. Ela não aparece em placas. Mesmo assim, muita gente aprende cedo que chamar atenção demais pode ser perigoso. Falar diferente, vestir diferente, discordar do grupo, propor algo arriscado, sair antes do chefe, empreender, mudar de carreira ou simplesmente dizer “eu penso de outro jeito” pode parecer uma pequena ruptura da harmonia.

Essa lógica tem um lado poderoso. O Japão construiu uma sociedade em que o coletivo importa. A pessoa aprende a observar o ambiente, respeitar o espaço do outro, evitar constrangimentos, preservar o grupo. 

Mas gera muitos problemas. 

Em 2024, o Mainichi mostrou o caso de crianças com raízes estrangeiras constrangidas por normas escolares que presumem cabelo “preto e liso” como padrão japonês. Em 2025, outro levantamento citado pelo jornal mostrou escolas revisando regras rígidas em 171 colégios do leste do Japão. No mundo das startups, o Le Monde apontou que o Japão tenta acelerar seu ecossistema empreendedor, mas ainda enfrenta barreiras culturais ligadas ao medo do erro e à baixa tolerância ao fracasso. 

“O prego que se destaca leva martelada”?

O ditado japonês original é 出る杭は打たれる (deru kui wa utareru). A tradução literal seria “a estaca que se destaca é martelada”, já que 杭 (kui) significa “estaca”. Mas, em português, a versão “o prego que se destaca leva martelada” comunica melhor a imagem e se aproxima da tradução popular em inglês, the nail that sticks out gets hammered down. Dicionários japoneses registram o sentido como uma advertência social: pessoas que mostram talento, iniciativa ou comportamento fora do padrão tendem a ser criticadas, invejadas ou corrigidas pelo grupo. O Kotobank também registra a variante 出る釘は打たれる, em que 釘 (kugi) significa literalmente “prego”.

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