O Japão é muito criticado pela diplomacia mundial. É difícil confiar no que os executivos e líderes do Japão dizem, porque nunca se fala de forma direta. Estão sempre rodeando, sempre deixando as coisas “no ar”.
Nesta edição, trazemos uma pista que ajuda a entender essa postura acanhada e dissimulada. O ditado “o prego que se destaca leva martelada” é uma prática cultural forte na sociedade japonesa. Nos círculos da diplomacia, no governo, nas empresas, na sociedade e, pior, nas famílias e entre amigos. Há um limite muito curto para quem tenta inovar ou pensar fora da caixa. No Japão, ninguém quer que você saia da caixa.
Não virá uma ordem direta para você se moldar ao padrão. Mas a pessoa sente pequenos olhares, falas e micro punições sociais que tentam envergonhá-la de tal forma que ela não exagere nos modos e nas ideias. Nosso debate na reportagem é entender o impacto disso no nível geral de criatividade das pessoas e das empresas.
Por isso, vemos aos montes funcionários de empresas se desesperarem quando qualquer coisa sai do normal. Tudo que está no manual deve ser seguido à risca. Saiu do manual, ninguém sabe o que fazer.
Excelente leitura!
Excelente provocação! O texto toca em uma ferida real da cultura corporativa e social japonesa: o peso do coletivismo e a famosa máxima do “prego que se destaca leva martelada” (deru kugi wa utareru). Essa pressão pelo conformismo e o apego rígido aos manuais são desafios reais que, inclusive, as gerações mais jovens no Japão têm questionado cada vez mais.
No entanto, vale o cuidado para não avaliarmos essa dinâmica apenas pela nossa régua ocidental. O que o texto chama de postura “dissimulada” ou “indireta”, na verdade, faz parte de uma cultura de alto contexto, onde a preservação da harmonia (wa) e a busca pelo consenso (nemawashi) são prioridades. Não se trata de falta de transparência, mas de uma gramática social diferente.
Sobre a criatividade: o Japão pode não seguir o modelo ocidental do “gênio individualista fora da curva”, mas sua liderança tecnológica global prova que existe inovação por lá — ela só costuma ser incremental, cirúrgica e colaborativa (o famoso Kaizen).
O grande desafio moderno do Japão é justamente esse: como calibrar essa coesão social fantástica com a flexibilidade que o mundo digital e acelerado de hoje exige. Baita reflexão para começarmos a semana!